terça-feira, 18 de setembro de 2012

a(a) cama


Nesse mundo só somos donos de nós mesmos
E das nossas camas.
Igual à  própria vida,
Modifica-se por movimentos talvez consequências de sonhos.
Igual à própria vida,
Sem zelo, vira um caos dos mais bisonhos.

Tem gente que tem cama macia
Fácil
E tem gente que se acaricia
Como se chão pudesse virar palácio.

Podemos trocar de lençol, de  cama e colchão
Mudar da fronha ao travesseiro
Mas é impossível fugir da nossa condição
E não nos entregarmos por inteiro.

A cama, como nós,
Vem em diversas formas, tamanhos e cores,
E carrega em si nossos devaneios, pesadelos e dores.
Obrigado, ó cama, por não nos deixar sós.

domingo, 20 de maio de 2012

O copinho de café

Amanhece. Um homem se agacha na calçada suja, cheia de folhas, e observa. Ergue seu pequeno copo plástico com café preto e dá um econômico gole. Talvez, beber mais devagar lhe dê mais disposição, o tempo demore mais a passar e ele tire mais proveito de seu pequeno momento íntimo. São raras as oportunidades de contemplar uma rua durante o amanhecer sem companhia alguma - escassas e pouquíssimo valorizadas, especialmente nesses dias. O céu apresenta uma entonação de quem não quer aparecer, o que não o diferencia muito daqueles que dormem e torcem para que seus sonhos continuem a distanciá-los da realidade. É de se apostar que, nesse dia, se fosse possível um pacto entre a humanidade e os céus para que o amanhecer demorasse umas horinhas a mais, ele aconteceria quase por unanimidade. O "quase" vem, é claro, daquela parcela chata da população que insiste em achar que tudo é lindo e que um amanhecer pálido e sem graça pode render alguma coisa melhor que caras amuadas e despertadores quebrados.

Infelizmente, os céus não falam ou, se falam, ninguém é sensato o suficiente para lhe dar um "bom dia" ou simplesmente elogiar o bom gosto na disposição das estrelas. Se alguém conseguisse falar com os céus, logo perguntaria coisas demasiado inconvenientes, como fofoquinhas sobre a vida amorosa do sol e da lua ou se a ursa menor guarda mágoas com a maior pela fama de pequena que ganhou por causa de alguns insignificantes anos-luz de diferença. Dificilmente alguém seria educado e econômico nas palavras como era o homem com o café naquele amanhecer sem graça – provavelmente, quem falaria com os céus não seria alguém que mereceria esse posto. Se todos fossem aptos a falar, mas os céus restringissem esse privilégio a um eleito, que seria escolhido entre os homens, seria realizada uma eleição, para a qual os inscritos deveriam apresentar comprovantes (assinados, protocolados e rubricados duas vezes após serem enviados para uma análise num prazo de dez dias úteis, prorrogáveis por mais cinco) de sua capacidade em falar celês, possivelmente depois de enfrentar uma fila de quatro horas - ou de meia hora, caso algum atendente fosse conhecido - e de penar para conseguir a fotocópia de algum outro documento inútil que foi exigido pelo atendente como imprescindível para a candidatura.

Se ninguém desse algum jeito para a escolha ser feita em votação secreta, haveria uma eleição geral em que ganharia o que melhor mentisse sobre o quão bom seria para a humanidade que ele tirasse sua dúvida particular com os céus. Depois de eleito, seria denunciado pela oposição como manipulador de massas, mentiroso, corrupto, idiota e aproveitador. Se a oposição tiver um pouco mais de poder, o retiraria do posto para pôr outro cretino manipulador, mentiroso, corrupto e idiota em seu lugar. O eleito, então, formaria uma comissão para a elaboração da pergunta, composta pelos seus apoiadores políticos e por um ou outro especialista em astronomia com quem não tenha antipatia declarada e cuja opinião não seria muito considerada nas deliberações da CPELEPC (Comissão Popular Extraordinária e Legítima para a Escolha da Pergunta aos Céus). Esse grupo seria considerado altamente intelectualizado só por fazer parte de uma comissão com um nome tão bonito e com um objetivo tão importante. Seus membros seriam chamados para participar dos mais célebres talk shows da televisão, para entrevistas exclusivas com revistas renomadas e até para ensaios fotográficos íntimos - aqui, é claro, só haveria convite para os cepelepecos (membros da CPELEPC) mais bonitinhos.

A imprensa, depois de exaltá-los, cobraria uma boa pergunta (com um conteúdo que ela concordasse). O dono de uma grande emissora, depois de construir uma amizade com o eleito em suas festinhas particulares e cheias de gente que finge muito bem que é feliz, faria com que suas ideias fossem consideradas com carinho pela comissão. "Depois de tudo o que eu falei de vocês", falaria, "Não é possível que nem se levantem da cadeira por um amigo". Na mesma lógica, os amigos do dono da emissora dariam pitacos sobre a escolha dos membros da comissão. "Olha, aquele astrônomo lá, sei não, mas ele disse numa entrevista que gosta de reggae. Onde já se viu uma pessoa tão importante gostar desse tipo de música?" ou "Viu aquela tatuagem que aquela moça da comissão tinha? Será que ela não sabe que alguém que ocupa um cargo daqueles não pode nunca ter uma tatuagem tão desinibida?" seriam prováveis comentários. Sugeririam que algum deles fosse escolhido para representar os bons valores dentro da comissão, o que seria proposto pelo dono da emissora e aceito pelos cepelepecos em nome da amizade. Se o laço entre os amigos não fosse tão forte a esse ponto, o dono da emissora, depois de ouvir alguns conselhos, decidiria soltar uma notícia bombástica com grave impacto na opinião pública, que passaria a olhar com mais desconfiança para a comissão. Seria, então, feita uma comissão para investigar suas irregularidades, cujos membros seriam especialistas em trocas de favores cuja escolha resultara de um criteriosa análise governamental. Assim, a CPEIIO-CPELEPC (Comissão Popular Extraordinária de Investigação de Irregularidades Ocorridas na CPELEPC) sairia da mídia em três meses e teria seus processos arquivados por falta de prova - o que não preocuparia os nela interessados, que já haviam afirmado seu poder de influência junto aos cepelepecos, que nunca mais ousariam discordar de dono de emissora alguma.

Um dia, algum membro distraído olharia para os céus e lembraria do verdadeiro motivo da existência de tudo isso. Perguntado sobre o processo de escolha da pergunta, o eleito diria que as opções iniciais de pergunta se encontram em processo de análise gramatical por parte de um órgão autorizado a fazê-lo. "Mas nós não temos um professor de português?", perguntaria o distraído. "Sim, mas ele não pode fazer isso. É ordem superior”. “Mas essa questão não é meio urgente? Será que não dá pra deixar pra lá e deliberar logo sobre a bendita pergunta?”. “Você está dizendo que nossos métodos não são os melhores?”. Essa seria a pergunta chave. É mais recomendável responder que os métodos dos quais se faz parte são, de fato, os melhores. “Não, não. Tem razão, vamos aguardar”.

Findo e prorrogado o prazo da análise gramatical, as opções de pergunta iriam para a deliberação. Agora, seria analisado todo o impacto social que a pergunta poderia causar: os termos nela presentes ofendem alguma minoria? Sintetizam os anseios de uma só classe social? Alguém pode considerá-los preconceituosos? Tais preocupações lembrariam que não existe nenhum representante de minorias na comissão, o que causaria um grande furor e resultaria na criação da ala em defesa dos interesses das minorias na CPELEPC e na CPEIIO-CPELEPC. Finalizada a equipe de apoio e realizadas pesquisas quanto às consequências da pergunta, finalmente alguém leria as alternativas para a pergunta. Pensaria “isso é coisa que se pergunte?”, mas, em público, elogiaria a visão holística de seu autor. Finalmente, depois de inúmeras reuniões, consultas e meses, a pergunta seria escolhida.

Mas o homem agachado na rua não quer saber qual seria. Nada de bom sairia dali, então é melhor nem especular. O melhor a ser feito, pensou, é admirar os céus, que agora pareciam mais animados e, sem muitas explicações, também pareciam animar a humanidade, que começava a se agitar em suas ruas, tão calmas há pouco. Encarou o seu agora frio cafezinho, o tomou num só gole, levantou e bradou aos céus, como se estivessem a sós: “Bom dia, dia!”. Mas o céu não respondeu. Apenas brilhou mais, como faz todo dia. Mesmo que não tenha entendido o que o homem falou, talvez essa seja a resposta fundamental para qualquer pergunta que se preze: prosseguir com a autonomia e a indiferença de quem sabe que continuar não é uma opção.

segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

A uma primeira vista

A uma primeira vista, Fernandinho era mais um adolescente rebelde. Mais um dos que escutam uma música com crítica social e acham que descobrem o mundo e toda a verdade além dos cabos de televisão. Outro que que escuta uma teoria da conspiração e a leva em conta pelo resto da vida como parâmetro para fugir do óbvio - não é possível que não percebam que ninguém é tão competente a ponto de esconder uma farsa mundialmente durante um longo período. Mas Fernandinho tinha uma razão nas suas dúvidas. Partindo da única premissa certa que existe nesse mundo – a própria existência -, chegou à questão fundamental: pra quê isso tudo? Por que diabos tanta gente busca tanto mais do que precisa? E por que tantos precisam mais do que buscam?

Tentou responder essas dúvidas de tudo quanto foi jeito. O primeiro, quase um reflexo humano para se responder ao que se tem muita preguiça para entender ou pesquisar, foi atender ao instinto religioso. Não deu certo: teria que partir de premissas que não sabia se eram tão verdadeiras quanto a que usara para ter essas dúvidas. Depois, tentou absorver as respostas de outras pessoas. Fez amigos, apaixonou-se, quebrou a cara. Virou um cético, o que era facilmente percebido quando se prestava atenção ao seu olhar vago nos momentos de silêncio. Porque o silêncio era um particular inspirador a procurar um rumo. Porque quando nada se escuta, se pensa. Mas a maioria das pessoas só pensa no que vai escutar a seguir. Fernandinho, não. Tentou se desapegar do sensorial. O problema era que, fazendo isso, não sentia mais nada. Como pensar sem sentir? Não há como encarar o mundo sem vê-lo, tocá-lo e cheirá-lo. Não há sentido em não ter sentido – é isso que dá algum rumo à vida.

Um dia, finalmente, Fernando desistiu de sua busca. Resolveu não dar mais corda para sua constante e reincidente curiosidade. A partir daí, criou uma espécie de medo da verdade. Via o envelope da fatura do cartão e se recusava a abrí-lo, como se aquilo de certa forma fosse desaparecer ou como se a conta fosse ser paga magicamente – esta seria a opção preferida do nosso amigo, pois, afinal, ele continuaria a ter uma televisão fantástica que comprara em 16 parcelas, semanas atrás. Tinha pensamentos a falar, textos a escrever e problemas a resolver, mas simplesmente não fazia nada disso. Ao contrário, era muito melhor desviar sua atenção para algum filme, livro, festa ou qualquer outra atividade (mesmo que patética) capacitada a lhe distrair de algum pensamento perturbador por um tempo razoável.

Mas acontece que o mundo é feito de ciclos. Se alguém foge de algo, há uma grande chance de se re-encontrar com aquilo – especialmente se o alguém em questão não for muito chegado a viajar. Fernando percebeu isso de uma forma meio esquisita: quando olhou para sua lâmpada e lembrou da sua pasta de dente. Imaginou se o flúor que estava na sua pasta de dente já tinha ajudado a iluminar um ambiente em que estivera. Pensou: como diabos algumas partículas de uma lâmpada queimada poderiam parar em seja lá onde se arruma flúor para colocar nas pastas de dentes e voltar a alguém que já iluminara – com o bônus de lhe dar um hálito mais fresco?

Tudo bem que lâmpadas fluorescentes não contêm flúor, mas Fernando tinha um ponto. Percebeu suas opções. Poderia continuar buscando distrações até o dia em que sua morte chegasse para não ficar aborrecido demais com a espera ou realmente fazer alguma diferença nesse grande caldeirão de átomos e moléculas que é o planeta. Ser, com o perdão do erro científico, o flúor que iluminou alguém e ainda voltou para embranquecer seus dentes. E nem precisaria ser tão pretencioso a ponto de se fazer uma diferença no mundo. Bastava fazer diferença para si. E, como tudo é um ciclo, essa diferença iria se espalhar e mudar algumas coisas até que ficasse pequena demais para se destacar. Mas isso é bom: acontece também quando se faz a diferença negativamente. A sujeira, por mais imunda que seja, se fragmenta e, antes que se perceba, tudo vai parecer limpo de novo. Ela se espalha, embora nunca tenha deixado de existir.

Foi bom para Fernando perceber isso. A partir desse momento, levantou-se e finalmente achou seu sentido. Que tudo do que ele é feito e tudo o que ele faz deveria, ao menos, tentar ser lembrado como bom. Que seus netos, bisnetos ou, quem sabe, tataranetos - no caso de alguma gravidez não planejada -, o lembrassem como um cara legal. Ou que, ao menos, suas moléculas fossem parar, digamos, num sutiã.

A uma primeira vista, Fernando é só mais um cara que quer ser um sutiã.

sábado, 22 de outubro de 2011

O travesseiro e o indiferente

Era o típico cidadão modelo. Só não era modelo cidadão porque, apesar de ter boa aparência o suficiente para frequentar as passarelas, achava que sua masculinidade nunca mais seria a mesma depois de uma sessão de maquiagem. Maquiagem, só no carnaval - e, fique claro, pela farra. O máximo de feminilidade que poderia apresentar era o seu gosto por alguns álbuns da Madonna, mas aí pode: ela é loira e ainda apresentável nessa idade.

Nasceu em família bem estruturada, mas que se acabou por ter estrutura demais e flexibilidade de menos. Seus pais separaram-se quando tinha 3 anos. A mãe casou-se com o próximo da fila e compôs a antítese da união anterior: um casamento sem solo, tão dinâmico que era nômade. Separou-se 2 anos depois, colocou a culpa em todos os homens - ou, melhor dizendo, no Homem - e hoje, 20 quilos mais gorda, tem um programa de considerável audiência na rádio local sobre culinária e feminismo. O caso do pai é típico: casou com o primeiro amor, que julgou ser eterno e perfeito até o dia do seu fim. Na verdade, ele o achava perfeito até mesmo bem depois do seu fim. Talvez ainda o qualifique assim, embora negue veementemente e profira duros xingamentos à ex. Talvez em anos ele perceba: o que ele achava que vivia nunca foi. O que ele quisera nunca será.

Seu filho, no entanto, não precisou de tanto tempo para acordar e sentir em si o sol congelante do fatalismo. Com a separação precoce dos pais, que sempre achou que seriam unos até o dia da morte, desacreditou no amor. Talvez por isso nunca gostou da primeira fase dos Beatles, de música pop e da Xuxa. Certo, a Xuxa nada tem a ver com isso: não gostava dela tão somente porque os bonecos dançantes que a acompanhavam lhe causavam pesadelos. As mulheres, logicamente, caíam em cima dele. Deu o primeiro beijo na garota mais bonita do colégio, perdeu a virgindade aos 14 sem precisar pagar por isso e aos 18 provavelmente já tinha mais mulheres em sua lista do que muito amigo solteiro do pai. Um sucesso total. O seu segredo era, simplesmente, falar o que as pessoas queriam ouvir. Descobriu isso no momento em que mais pensava durante o dia: no encontro da cabeça com o travesseiro. Da premissa para o êxito, bastou a prática.

Pobre homem. Esquecido do poder da genética - aulas que provavelmente matara para exercitar seu dom -, achou que nunca sentiria falta de uma mulher diferente. Sua indiferença afastou essa possibilidade. Desprezou o primeiro amor por medo de que fosse o último e, por isso, acabaria por viver sem nenhum. Um dia, decidiu mudar. Conheceu uma mulher, lhe fez juras de amor, a pediu em noivado e, alguns meses após, casou-se com ela. Mas faltava algo. Love Me Do ainda não fazia sentido algum. Para esvaziar sua cabeça, passou a ocupar sua rotina. Não adiantava. Alguma coisa não estava certa.

Foi aí que veio o momento cabal. A verdade irrefutável. Olhava para o teto e sua mulher roncava. Lembrou daquela noite em que descobriu o segredo do seu sucesso e se perguntou o que gostaria de ouvir. Pensou, refletiu, meditou.

Só lhe restou lamentar que os travesseiros não falam.

domingo, 21 de agosto de 2011

A linha e as linhas

O homem entrou no ônibus e pensou: "interessante lugar, esse ônibus". Corrigiu logo depois: "interessantes lugares, os ônibus em geral"; finalizou: "seria mais interessante se eu não tivesse que ir em pé nesse aperto". Mesmo quase sufocado e sabendo que seu trajeto demoraria cerca de hora e meia, caiu-lhe a ideia de atribuir nomes e perfis para alguns de seus companheiros de viagem. Ajudaria a passar o tempo. Olhou para um moreninho e seu subconsciente o alertou que ele provavelmente teria um nome como Josyvaldisson ou Welynnton e que seria melhor ficar longe qualquer que fosse seu nome, mas logo o seu consciente retrucou e disse que isso era racismo. Racismo é crime, pensou, e julgou que seria mais conveniente para si que o chamasse de Valdir, um bom menino que trabalha para ajudar no sustento da mãe e do irmão. Tinha uma cara pensativa, como se estivesse a tramar uma ideia ou recordando algum acontecimento do dia em detalhes, o que provavelmente não foi possível fazer no momento exato do fato, por qualquer razão que aqui não cabe especular. Como estava razoalvemente trajado, nosso amigo cansado e em pé não titubeou em supor que ele estivesse voltando do cinema - o que seria bem possível, dado que nunca se viu uma cidade com tantas salas de cinema como aquela.

Tinha cara de quem curte filmes de ação, o Valdir - assim como a maioria dos homens desse planeta que curtem filmes. Sua feição, porém, não parecia relembrar o feito heroico do personagem ou a beleza da protagonista (que provavelmente não seria de se jogar fora, como normalmente não é; muito pelo contrário, seria uma conquista digna de troféu para qualquer homem - ou mulher, nunca se sabe nesses dias), mas estava ateado a um detalhe da película: possivelmente, o prejuízo que têm as lojas nesse gênero da sétima arte. Ou melhor: a quantidade de vitrines e de lojas com vidro que insistem em aparecer nas cenas mais agitadas. Por que diabos o mocinho tem que causar tanto prejuízos a terceiros que nada têm a ver com sua causa? Tudo bem que ele quer salvar o mundo ou, ao menos, os Estados Unidos, mas um "com licença" ou uma dose a mais de cuidado não faz mal a ninguém.

Minha vó me dizia muito isso, pensou o homem, enquanto olhava uma senhora sentada perto da metade do veículo. Indagou-se: será que eu pensei nisso porque minha querida avó me ensinou bem ou por que esta senhora e seus cabelos brancos me fizeram associá-la com minha vó? Não faz mal, lembrou-se, o que mais lhe cabe no momento, o que mais atende sua tarefa atual, é traçar um perfil da mulher. O primeiro a se fazer era dar um nome à velha. Gertrudes foi o primeiro nome que seu subconsciente apontou. Como não existe racismo com os mais velhos, poderia curvar-se a esta intuição sem maiores problemas. Até porque, realmente, Gertrudes é nome de velha. Tinha cara de quem estava ali a força, como se o transporte coletivo fosse sua última opção. Provavelmente sente saudades da época em que suas pernas aguentariam a caminhada sem problemas, pois, se é pra chegar suada em um canto, que ao menos se queime algumas calorias a mais com isso. Tentou usar um táxi, mas desistiu ao notar que não teria dinheiro para tanto, já que fora assaltada um dia antes e sua aposentadoria estava atrasada. Maldito governo, sempre cobra, mas nunca cumpre. Ter que pegar um táxi a fez lembrar de certa vez que notara a incrível semelhança entre as vozes das operadoras de táxi: sempre uma voz levemente fonha, disfarçada pelo ruído do rádio. Será que cobram isso nas entrevistas desse emprego? A velha tinha cara de quem tem ou já teve, no auge dos tempos de fofoca, uma voz dentro desse perfil. Até que seria uma boa, para ela, tentar esse emprego, já que o governo não é lá muito generoso na quantia mensal da qual retira seu sustento.

O ônibus deu uma freada intensa. Bastou essa quebra de movimento linear para nosso protagonista também quebrar seu raciocínio sobre a simpática Gertrudes, sua voz fonha e seu possível futuro emprego que conseguiria graças a esta característica. Escolheu um outro alvo, mas não antes de perceber que um local vago lhe esperava - o que preferia não ter feito, já que foi rapidamente ocupado por um rapaz com um fone de ouvido. Ladrãozinho, pensou, não merece minha atenção. Com a certeza de que o insolente que lhe roubara o lugar não seria o próximo alvo, prosseguiu em sua missão. Depois de Valdir e da velha Gertrudes, faltava um velhinho e uma moça para completarem-se dois casais, destacou. Como sempre fora um romântico, daqueles bobos o suficiente para ouvir canções adolescentes de amor até os 60, resolveu seguir a ideia. Achou uma moça de beleza: poderia até interpretar a mocinha no filme de ação recém visto por Valdir tranquilamente. Quer dizer, pensou nosso amigo, nem tanto, essa aí tem cara de quem vive atrás de um namorado por puro desespero, não por vontade. Tem jeito de ser daquelas grudentas, que acham que o mundo gira em torno delas e que homem bom é o homem dos seus sonhos. Quanta ingenuidade, lamentou nosso companheiro: ela provavelmente pensaria assim até o dia em que descobrisse que aquele não era seu sonho, mas de toda uma tropa que não percebe o que a palavra sonho significa - ou que nem mesmo tem a coragem de conferir num dicionário. Malditas canções pop, disse-lhe o subconsciente. Não estava errado desta vez, esse racista preconceituoso com idosos: talvez as músicas ouvidas pela garota (que se chama, por acaso, Cíntia) reflitam e ao mesmo tempo sejam o mal de toda uma geração. Essa necessidade de encaixe tão natural ao homem - no caso, à moça -, tão essencial, mas que dota o malfeitio de moldar-lhe como um ser voltado a um fim e não a si.

Maldita Cíntia, fez-me filosofar em um ônibus lotado, pensou Afonso. Sim, nosso querido amigo chama-se Afonso, nome que é fruto da falta de sinônimos e da aparente falsidade que é chamar alguém de amigo ou querido quase que de forma constante. Maldita não, complementou, afinal fazer filosofia num ônibus deve ser raro nesses dias, o que faz de mim um privilegiado. É uma querida, essa Cíntia.

Faltava o par da dona Gertrudes. Não que ela estivesse ainda no estado de espírito cujo principal objetivo fosse buscar um companheiro - como está a bela e já analisada Cíntia -, mas um parceiro, nessa idade, é sempre útil, seja para jogar uma conversa fora ou para estabelecer uma amizade que não duraria tanto quanto desejariam. Infelizmente, parece que era ela única pessoa acima de 60 no ônibus. Afonso tinha lá seus 40 e tantos, mas para si já lhe bastava sua mãe querida e algumas tias de idosos com quem manter amizade e afeto. Notou um homem no qual caberiam, tranquilamente, uns 50 e tantos. Ufa, a velha não fica contigo, disse-lhe seu inconsciente, ácido e sagaz como de costume. O homem, de nome Carlos, era a figura da burocracia: camisa social, cabelo encebado de gel penteado para o lado, a disfarçar-lhe as entradas da calvície, óculos de armação grossa, barba e bigode bem feitos e uma testa grande e enrugada. Provavelmente é daqueles que sabem tudo, mas não sabem nada. No trabalho são de grande utilidade por seu conhecimento, fruto de uma longa vida de estudos bancada pelos pais, aos quais oferece sua presença na ceia de Natal e algumas ligações telefônicas em aniversários e em datas especiais como forma de retribuição e pagamento. Pobre homem, pensou Afonso, julga que tudo nesta vida é uma transação. Nunca deve ter tido uma discussão com os pais: não por falta de motivo, mas porque, normalmente, é mais conveniente fingir que está tudo perfeito, fechar a boca e aproveitar o silêncio do que arriscar a quebrá-lo e não gostar do que se ouve depois disso, mesmo que os ouvidos já pressintam o que seja. Normalmente, julgou Afonso, este tipo divide-se em dois: ou é um ingênuo, que crê no sistema e no próprio ser humano, feito à imagem e semelhança de um ser supremo e bondoso, ou é um pilantra, que se aproveita dos ingênuos e nega a tese de que todos descendem de um ser com tamanha bondade. De qualquer forma, Afonso não é de sair com nenhum desses tipos por aí. Fazia mais o cético utilitarista-divertido, aquele que acha que não adianta lutar muito por grandes causas, o que importa é aproveitar os momentos que estão aí para serem aproveitados.

Passou o tempo. O ônibus foi mais rápido do que o costume, o trânsito estava gentil. Chegou o fim da linha, finalmente, para Afonso. Linha, palavra engraçada, pensou, finalmente, Afonso. Talvez a vida, não só ela, mas toda a existência, seja tão sem rumo quanto um emaranhado de linhas e quanto as aletórias linhas de pensamento que neste ônibus foram tecidas. Pensamento presunçoso, concluiu, pois esta linha de ônibus é a mesma desde que se dava por gente. Não lhe importava agora saber se há ou não um insconsciente tal qual o seu, cheio de ironia, por trás disso tudo: o que realmente queria era se livrar desse aperto e descansar as pernas.

sábado, 16 de abril de 2011

A caneta do Batman

Quando era pequeno, o menino tinha uma preocupação especial antes de ir à escola: não esquecer da borracha. Quando não a achava, não sentia necessidade de levar o lápis. Afinal, para quê diabos usaria o lápis se não poderia apagar o escrito? Além disso, funcionava como uma desculpa para escrever com sua canetinha do Batman, a qual só era acionada em ocasiões especiais - questão de economia e estilo. A do Robin, é claro, ficava para o dia-a-dia.

Talvez haja um quê de sabedoria numa atitude tão singela. A inocência do garoto tem como fruto uma boa metáfora da existência humana. Talvez a vida seja um papel de caderno - aí já não sei o super-herói da capa - e tenhamos a opção de escrevê-la da maneira pela qual queremos. O lápis seria uma garantia de que, se tudo desse errado, poder-se-ia apagar tudo e partir do zero. Representa a cautela, o cuidado para que tudo dê certo. O único probleminha, amigo, é que a temporalidade não permite nenhuma borracha: o que se escreve, o que se faz, não mais será apagado - no máximo, rasurado. Mesmo que se arranque a folha, a amasse e se lhe jogue fora, o escrito, o feito, o passado não pode ser mudado.

Ora, qual o sentido de se usar o lápis se não há borracha? Não seria muito mais razoável - e, provavelmente, mais divertido - utilizar a nossa caneta preferida? É sabido que um dia a tinta irá acabar - mas também é assim com o grafite e com tudo nesse mundo. Escrever a própria existência com a caneta que se deseja, colocando no papel o que se quiser: taí um bom sentido para a vida. Talvez se mais gente agisse dessa forma, buscando o que quer sem a cautela, sem o medo de errar ou de ser reprovado, viveríamos num lugar mais cool.

É lógico, porém, que a prudência, a cautela e qualidades similares são necessárias para qualquer um. Não se pode escrever de qualquer jeito - afinal, ninguém (creio eu) gosta de ler um texto todo rasurado. Escrever com caneta exige um cuidado e uma atenção toda especial, além de uma convicção de que se está fazendo tudo do jeito certo. É preciso um grau de maturidade para que se perceba a imensa responsabilidade embutida nisso tudo: é a sua história; você escreve. Logicamente, as consequências dos seus atos devem vir ao seu encontro.

Portanto, amigo, não tenha medo de escrever com a caneta. Nossa vidinha é por demais pequenina para que tenhamos tempo de fazer rascunhos e de buscar a perfeição em tudo. Lembre-se que nem mesmo os super-heróis são perfeitos (faça-se justa exceção a Chuck Norris). Recorde-se que a borracha da vida não existe. Não economize a tinta de sua caneta preferida - nunca se sabe quando ela pode quebrar ou quando um vento pode levar para longe o seu papel. Use-a o máximo que puder, com toda a responsabilidade que isso implica. Seja seu Batman. Ou então se contente com o papel de coadjuvante na própria vida. Você escolhe, você marca o X.

E a resposta só vale se for de caneta.

quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

Cardápio

Tem certa coisa que me intriga. Por exemplo: é costume de escritores renomados (e bons) fazer um pequeno prefácio em seus textos ao se contar uma historinha relacionada ao tema. De preferência, metaforicamente. Passa uma ideia de cultura, genialidade, experiência no assunto. Mais ou menos como um passe de trivela mais simples, substituível por um passe normal. Serve para seu autor mostrar que sabe. Sua principal serventia, porém, é a de segurar o leitor. Um bom começo, com uma boa historinha, é fundamental para isso.

O problema é que raramente consigo um começo assim. Tudo bem que agora eu usei essa falta de habilidade - ou de cultura, seja o que for - como uma boa desculpa para começar um texto. Mas, normalmente, não sai tão fácil assim. Claro que existe aquele texto que já está quase pronto na cachola, mas é difícil achar um conteúdo legal que se possa relacionar ao que se quer falar. Basta dizer que a ideia inicial deste texto era a de falar sobre frutos do mar e sobre um termo usado num cardápio. Onde diabos se conseguiria uma introdução atrativa para isso? Ou será que o certo é ir direto ao ponto, sem preliminares? Ou não existe uma fórmula certa e cada texto é único e tem uma construção que deve ser seguida sacramentalmente?

É difícil responder. A ideia de que existe um mundo dos textos - sugerida, salvo engano, num poema de Carlos Drummond de Andrade - é até legal, mas improvável. Dá pra imaginar um lugar escuro, cheio de palavrinhas em branco que andam juntas, esperando serem sugadas para outra dimensão, uma espécie de cosmos da linguagem. Só que a ideia é meio maluca. Bonita, mas maluca. Melhor acreditar que os textos esperam para serem criados semi-prontos. Na cabeça de cada um, ele aguarda. Pode ser exteriorizado via oral ou escrita. Não que ele já esteja pré-pronto: é sua ideia que está. Cabe ao escritor - ou orador - dar-lhe requinte, de acordo com seus gostos, aptidões, talentos e prática. Daí é que vêm os grandes. É quase uma receita (apesar de que existem alguns pratos pré-prontos muito gostosos, o que traz dúvidas sobre a eficácia dessa metáfora), como se a união desses elementos implicasse em boas produções. Matemática.

Essa é a fórmula. Com a prática, provavelmente se alcançarão introduções engatilhadas a qualquer assunto. Bem, pelo menos torço por isso. Quanto aos frutos do mar, basta dizer que existem preliminares tão boas que dispensam o prato principal.

Talvez aí exista uma boa razão para a metáfora com comida.