Não vivo em tempos sombrios: há acontecimentos, pessoas e histórias terríveis ao meu redor, mas, igualmente, existe com quem vale a pena passar uma tarde, uma noite, o dia, a semana e, por que não, a vida. Há belas histórias que, futuramente, serão os exemplos perdidos de uma época gloriosa. Cabe a mim, humildemente, escrever uma delas. Enquanto existirem pessoas, haverá (e há!) quem traga luz ao próprio tempo. Por mais escuro que o meu seja, ou possa parecer, por vezes uma tarde agradável pode acender a chama que acostuma meus olhos à luz, fazendo renovar-se a esperança de, um dia, compreender por que iluminar apenas o que posso ver é vão como uma fogueira cintilante numa caverna de cegos.
sexta-feira, 1 de agosto de 2014
terça-feira, 17 de setembro de 2013
as três estátuas
A voz no beco
Tinham quinze anos quando aconteceu.
Carlos, José e Arnaldo estavam sentados numa praça da cidade, falando sobre os
assuntos que qualquer menino de quinze anos conversa – futebol, carro, mulher e
histórias inventadas ou mal contadas sobre esses temas. Olharam, os três ao
mesmo tempo, para um beco escuro de uma rua sem saída ao lado deles. De lá
vinha uma voz suave e, contraditoriamente, amedrontadora:
-José, preste atenção.
José não só prestou atenção como começou
a tremer.
-Carlos e Arnaldo, vocês também.
Arnaldo pensou até em correr e gritar
pela mãe – era o que morava mais próximo dali –, mas foi contido por Carlos:
-Psiu, fica quieto.
E ficaram. A voz prosseguiu, agora
parecendo que vinha de trás deles:
-Na rua da qual veio minha voz,
encontrarão três pequenas estátuas. Elas poderão ser muito úteis a vocês:
quando bem entenderem, basta quebrá-las que voltarão no tempo a um certo
momento desejado. Duvidam? Então por que minha voz agora vem do céu?
E vinha.
-Continuam duvidando? Então por que vão
viver isso tudo de novo?
E lá estavam eles falando da nova
namorada daquele jogador quando, subitamente, param de falar e escutam, da
mesma rua, uma voz capaz de corroer por dentro uma alma:
-José, preste atenção.
***
José
José tinha dezenove anos quando começou a
namorar Luiza, uma menina bem bonitinha em quem esteve de olho desde os
dezesseis. Todos os amigos do casal já perguntavam quando seria o casório a
partir do terceiro ano do relacionamento. Amigos só de José, entretanto,
alertavam-lhe sobre a juventude perdida:
-Zé, tomara que você goste mesmo dessa
garota, porque cê não faz ideia do
que tá perdendo...
Mas José tinha uma carta na manga: a
estatueta recebida naquela noite sombria. Sempre se perguntava quando a usaria
e, ao mesmo tempo, sentia-se seguro para fazer o que bem entendesse – ora, o pior
que lhe poderia ocorrer seria viver tudo de novo e, se tem gente que reclama
que a vida é curta, ele poderia tê-la duas vezes...
No seu sétimo ano de namoro, então, briga
pela trecentésima (sem usar hipérbole alguma) vez com Luiza. Uma ciumeira sem fim acabou com o
namoro. José chega em casa chorando e, agarrado ao copo do uísque que ganhara
de presente de um amigo que viajara ao exterior, pensou na juventude perdida. A
quantas festas não foi, quantos drinques não bebeu, quantas mulheres não
beijou... maldita Luiza! Se ele soubesse, nunca teria feito nada a seu
respeito! Que perda de tempo... Lembrava-se do mole que a Cláudia da faculdade
dava pra ele. Recordava do beijo que a Jéssica, do escritório, tentara lhe
roubar durante um churrasco. A cada chance antes perdida, crescia seu ódio por
Luiza.
Vai ao baú no qual guardou,
carinhosamente, a estátua. Ela repousava, parecida com a estatueta do Oscar e
coberta por uma fina camada de poeira, ao lado de alguns troféus de judô
conquistados na infância. José não lembrava por que, afinal, tinha deixado o
esporte. Antes que pudesse refletir sobre isso, exige-se foco para o que iria
fazer. Agarra o pequeno homem, levanta-o com o braço direito e o atira no chão.
Queria voltar para o momento no qual chamara Luiza para sair pela primeira vez.
Voltou aos seus dezenove anos. Estava
cara a cara com Luiza. Conversou tranquilamente, mas não a convidou para sair e
seguiu a vida, sem noção do que fazer e esquecendo-se de tentar descobrir por
que ele deixara o judô.
Por fim, a Cláudia da faculdade casou-se
precocemente com outro rapaz da turma e a Jéssica do escritório nunca lhe deu
bola alguma. José, de fato, aproveitou algumas festas e bebedeiras durante seus
anos dourados, dos quais prefere nem lembrar para não se acabar em tristeza e
contemplação. Aos vinte e oito anos, casou com Luiza (ela mesma). Foi pai de
dois filhos, eternamente traumatizados pela separação dos pais, ocorrida após o
flagra presenciado por José ao deparar-se com Luiza e Cláudia (aquela mesma) na cama.
Dezenove anos depois de jogar fora seus troféus de judô (“Mas pra quê eu quero essas tralhas, mulher? Manda tudo pro lixo!”, gritara para sua segunda e definitiva esposa enquanto se ocupava com temas mais importantes que ele e seu passado – na ocasião, as quartas-de-final da Copa São Paulo de Juniores), morreu sem nunca descobrir por que diabos, afinal, casara com Luiza.
Dezenove anos depois de jogar fora seus troféus de judô (“Mas pra quê eu quero essas tralhas, mulher? Manda tudo pro lixo!”, gritara para sua segunda e definitiva esposa enquanto se ocupava com temas mais importantes que ele e seu passado – na ocasião, as quartas-de-final da Copa São Paulo de Juniores), morreu sem nunca descobrir por que diabos, afinal, casara com Luiza.
***
Arnaldo
Arnaldo mudou depois do incidente na praça.
Se fora o primeiro a pensar em correr para casa após ouvir aquela voz capaz de
arranhar as entranhas enquanto causa calafrios em sequência (ele arrepiava-se
só em começar a lembrar daquele “José, preste atenção”), passou a encarar os
momentos amedrontadores com mais coragem. Ora, se podia voltar no tempo quando
bem desejasse, poderia correr riscos e desfrutar da consequente reputação de
corajoso e visionário que se configuraria.
E, de fato, Arnaldo tinha uma excelente
intuição. Recorrentemente, recebia elogios:
-Mas tu tem um instinto, viu? Benza Deus!
-Arnaldo, depois me passa o número da
bruxa que te deu essa bola de cristal que, se essa desgraçada me der uma, eu
caso com ela na hora!
Ganhou fama. Tomava posições fortes e
convictas, mesmo que nem sempre corretas. A cada erro, ponderava se devia
voltar no tempo. “Não”, pensava, “a cada dia sem voltar, é um dia a mais de
experiência. Quanto mais tempo passar, mais eu ganho aqui e mais tempo a ganhar
eu tenho lá”. Por ser corajoso, de boa intuição e de voz forte, conseguiu um
bom emprego já aos 23 anos como corretor de ações. Consolidou-se no mercado,
fundou uma escola com seu legado. Muitos anos depois, foi convidado para um
cargo executivo em uma grande empresa. Aos quarenta e cinco anos, considerava-se
feliz. Rico, bem sucedido, casado com Marta, quem conhecera ainda guriazinha e
que se tornou um mulherão – vinte e cinco anos mais nova, mas dane-se: era um
mulherão.
Quase todo dia, porém, abria uma pequena
porta localizada estrategicamente ao lado do pé direito de quem senta na sua
imensa mesa de trabalho. Imaginava o uso que poderia dar à estatueta localizada
atrás de alguns livros e que brilhava como se houvesse sido fabricada naquele
mesmo dia. Parado, punha a mão no queixo, o cotovelo no braço da cadeira e
pensava, sem progressos, no que tinha dado errado na sua vida.
Certa vez, Bentinho, seu filho, pediu um
novo videogame. Consultou uma revista
do ramo e viu que a única mudança em relação ao anterior, ganhado pelo filho há
menos de seis meses, era no design
dos botões. Negou o presente de Natal ao filho veementemente:
-Não, esse novo é a mesma coisa.
-Mas papai, o novo... – o filho nem
conseguia terminar a frase:
-Não é não, entendeu? O que tem de errado
no seu? Acha que ele foi barato? – dizia, firme como achava que deveria ser.
-Não é questão de ter algo de errado no
meu, mas é que dava pra ser melhor, pai...
Arnaldo arregalou os olhos
instantaneamente. Arrepiou-se como há tempos não fazia. Soltou um largo
sorriso: era isso.
-Então, tá, meu filho! Eu compro! - a
mudança de feição do pai deixou o menino confuso. Ora, pra quê negar o desejo
do garoto se não o veria em muito tempo? Melhor deixá-lo aproveitando alguns
minutos de júbilo, pois muito em breve voltaria a não existir.
“Era isso! Bingo!”, pensava Arnaldo
enquanto corria para seu escritório, “Não tem nada de errado, mas dá pra
melhorar! Dá pra melhorar!”. Como se houvesse voltado aos vinte e dois anos –
em verdade, estava prestes a fazê-lo –, deu um pulo na cadeira e pesquisou os
resultados da loteria daquela época. Decorou os números como se fossem fórmulas
para um exame final da faculdade: três, vinte e oito, sessenta, sessenta e
quatro, setenta e cinco, oitenta e dois. Repetiu a sequência obsessivamente por
quatro dias. No quinto, pegou a estatueta e, sem ritual algum, atirou-a no
chão.
Estava na ocasião em que havia recém
obtido o emprego como corretor. Faltavam cinco dias para a loteria. Correu,
agora com o fôlego renovado pela juventude, e entrou na primeira casa lotérica
que viu. Três, vinte e oito, sessenta, sessenta e quatro, setenta e cinco,
oitenta e dois: marcou cada número com um prazer inimaginável, talvez nunca
sentido em seus quarenta e tantos anos de experiência terrena. Trabalhou tranquilamente,
do jeito de sempre, arrancando elogios e olhares de admiração. Por
coincidência, foi naquela semana que viu a pequena Marta, a quem mimou como
pôde.
Chegou o domingo: ligou a televisão e
começou a esperar pela boa nova. Via o apresentador gritar:
-A primeira bolinha, vamos lá com a primeira
bolinha... três! Número zero-três é a primeira bolinha!
Arnaldo começava a entrar em êxtase. Veio
a outra:
-E agora, hein, olha lá a segunda
sortuda... é o número três-um! Repito: trinta e um!
Arnaldo congela. Sentia uma espada
cruzando-lhe o corpo. Uma não:
-Cinquenta! Cinco-zero é o terceiro
número!
Desabou. Impotente, assistiu ao sorteio
até o fim.
Depois disso, nada lhe restou senão
tentar repetir a sua vida. Nem tentou entender o que passara, embora haja
criado o hábito de jogar na loteria os mesmos números de sempre (três, vinte e
oito, sessenta, sessenta e quatro, setenta e cinco, oitenta e dois), nunca
acertando mais que três. Com o baque, perdeu a autoconfiança. Não conseguia
repetir o pulso forte de outrora: era só mais um corretor de ações. Via Marta
crescer e não conseguia separar-se daquela que talvez fosse seu único vínculo a
uma vida passada, mas totalmente desvinculada de seu futuro. Descontrolado,
atacou a menina quando ela ainda tinha dezessete anos e, na fúria de quem nada
pôde fazer porque seu ex-sogro o interrompera violentamente, sofreu um acidente
de trânsito que lhe tirou o movimento perfeito das pernas.
Morreu velho, aos 87 anos, em uma cidade
pequena do interior, para onde se mudara com fins de iniciar uma nova vida. Foi
bem sucedido: chegou sem pernas e só saiu de lá sem vida. Por vezes, seus
filhos flagravam-no cochichando, amargurado:
-Você deveria ter seguido sua intuição...
Deveria ter seguido...
***
Carlos
Carlos ficou fascinado com o ocorrido na
praça. Voltou para casa especulando de onde aquilo vinha, por que com eles,
como o tempo poderia ser manipulado daquele jeito e se o tempo, afinal, é tão
determinante sobre as pessoas, ou, ao menos, sobre ele. Pensar nisso fazia com
que ele se sentisse extraordinariamente bem. Sentir-se bem pensando é ótimo
quando se tem que tomar decisões importantes: assim, a estatueta o acompanhava
aonde trabalhasse. Deixou a estátua já na mesa de seu primeiro estágio, sem
medo de que ela se mostrasse a um mundo que a desprezava por desconhecer o seu
poder.
Jovem, aproveitou a juventude: usou sua
força para ganhar seu espaço e sua energia para se divertir. Adulto, gozou da
maturidade: sempre sóbrio no que fazia, consolidou-se como um grande professor.
Em meio a isso tudo, encontrou uma mulher com quem valia a pena casar-se e
assim o fez. Já velho, curtiu seus últimos dias com a amada e os descendentes
de uma maneira que deveria ser regra na humanidade. Já nos seus últimos dias de
vida, entregou a estátua para o primogênito, Emerson, dizendo-lhe com um tom
rouco e cansado, mas encantadoramente forte:
-Que, ao olhar para esta estátua, você e
seus irmãos sempre se lembrem do seguinte: o maior erro que se pode cometer é
não cometer erro algum. Essa estátua é a coisa mais valiosa que eu já tive,
filho. Agora, ela é sua.
Aos noventa e três anos, faleceu da
melhor forma possível: certa noite, dormiu para não acordar mais. O único fato assustador
em relação a seu óbito foi relatado pela viúva: ela jurou que o marido dera boa
noite a si mesmo aquele dia, pois ouviu, quando ainda estava no banheiro
guardando a própria dentadura, uma voz grave, forte e amedrontadora que qualificaria
como sombria se não lhe houvesse causado uma agradável sensação de ternura:
-Boa noite, Carlos. Durma em paz.
domingo, 28 de julho de 2013
siga o baile!
quando tudo estiver feio
e nada parecer correto
se a dança não tem sincronia
e os acordes não se acertam nem sob decreto
se mesmo a velha que sempre sorriu
condenar um brinde gentil
lembre-se:
boniteza é questão de gosto
quem diz o incorreto é o corretor
sincronia se consegue com treino
e o mais belo dos sorrisos é o que surge na dor.
quanto à música?
bem,
tolo é se preocupar
enquanto o resto pulsa.
chamem a velha para brindar
a um relógio suíço que não se ajusta.
e nada parecer correto
se a dança não tem sincronia
e os acordes não se acertam nem sob decreto
se mesmo a velha que sempre sorriu
condenar um brinde gentil
lembre-se:
boniteza é questão de gosto
quem diz o incorreto é o corretor
sincronia se consegue com treino
e o mais belo dos sorrisos é o que surge na dor.
quanto à música?
bem,
tolo é se preocupar
enquanto o resto pulsa.
chamem a velha para brindar
a um relógio suíço que não se ajusta.
a visão do cego
o chão é torto,
nada é reto.
tudo é barulho
e chuva forte não vê teto.
aqui, porém, clamam, gritam, choram, anunciam:
"tudo o que veem está certo!"
"não!", contesta o cego
"o certo
é que do reto
nunca chegaremos perto."
nada é reto.
tudo é barulho
e chuva forte não vê teto.
aqui, porém, clamam, gritam, choram, anunciam:
"tudo o que veem está certo!"
"não!", contesta o cego
"o certo
é que do reto
nunca chegaremos perto."
quarta-feira, 22 de maio de 2013
o formulário
Verônica, três meses depois de tomar a
decisão – e de trair Marcelo, que, faça-se justiça, também a traíra, embora jure que fora obrigado a ir para a cama com Carlinha, (ex) amiga de Verônica –
finalmente tomou coragem e uísque (e vodka, e cerveja, e caninha com mel e
caipirinhas) o suficiente para acabar o namoro. Desabafava.
-Sabe o que é, Marcelinho? Você não me
escuta. Sempre acha que tá bom. Não se interessa por saber a opinião dos
outros. Não se interessa por saber a minha opinião. Tenha santa paciência,
Marcelo!
-Mas amor...
Ela nem o deixava falar:
-Mas amor coisíssima nenhuma! Você nunca
escuta! Já parou pra pensar em quão ruim você é por isso até mesmo no sexo? A
própria Carlinha, aquela vaca, disse! Já tomei a decisão e não vou mudar, está
tudo acabado!
Virou o resto da cerveja e ainda
despediu-se magistralmente.
-Adeus! E pague a conta, você que
escolheu esse bar ruim e caro!
Verônica, em seu piti de término de namoro,
estava certa em uma coisa: ele não era muito de ouvir opiniões. Já custava-lhe
muito prestar atenção em aulas importantes, quanto mais em pessoas. Nem gostava
muito da agora ex-namorada: achou até bastante conveniente que fosse ela a
terminar o relacionamento. Não ligaria para nada do que ela falou, mas prestou atenção a partir de quando
as palavras “ruim” e “sexo” estavam perigosamente próximas no discurso. Ficou
encucado e até com medo daquele desabafo. Será?
Passou uma semana e Verônica ligou
dizendo que o amava e que quem falara tudo aquilo fora o álcool e não ela. A
conversa não durou muito, já que quem atendeu o telefone foi a Carlinha. Dez anos mais tarde Verônica casaria-se com um surdo-mudo.
Decorreu-se um mês e Marcelo ainda estava
com aquilo na cabeça: será que era tão ruim de cama assim? Será que a Carlinha,
a Verônica e outras tantas sempre fingiam? O que ele tinha de bom, afinal? O
que teria de melhorar?
Estava na sala de aula quando lhe veio à
cabeça a brilhante solução: fazer formulários. Isso: formulários de satisfação
das suas conquistas. Exatamente como aqueles de qualquer restaurante de macarrão,
mas que fossem efetivamente respondidos e não servissem só para clientes
esporádicos anotarem telefones ou tecerem rabiscos. Começou a fazer o rascunho
ali mesmo. Algumas horas mais tarde, o Formulário de Satisfação Sexual do
Marcelinho estava pronto.
Agora vinha a parte mais difícil: arrumar
quem os respondesse. Mas um homem com o orgulho ferido atrai mais as mulheres,
principalmente se, como Marcelinho, morar numa cobertura na beira da praia
e for filho de um dos homens mais ricos do estado. Finalmente, transou com a Carla (que,
apesar do nome, era menor que a Carlinha). Perguntou, finalizado o ato:
-E aí, gostou?
-Ai, foi show!
-Mesmo?
-Claro, por que você acha que eu
mentiria?
“Talvez porque a gente jantou em outra
cidade e veio de helicóptero pra cá?” foi o que ele pensou e quis, no fundo
responder. Preferiu ater-se ao seu objetivo.
-Então tá. Olha... É que, como você sabe,
eu perdi minha mãe muito cedo – Carla assustou-se –, então minha psicóloga
disse pra eu aplicar esses questionários aqui para as minhas parceiras sexuais.
Não é nada demais, só pra auxiliar e desvendar alguns aspectos do meu
subconsciente e ter algum resultado nesse tratamento que eu faço desde que,
você sabe – ele já percebia uma expressão de pena na moça –, aconteceu...
-Claro! Ajudo sim! Passa isso pra cá!
E começou a responder. Volta e meia,
fazia uma cara de espanto ou estranheza, mas respondia como se estivesse numa
prova da faculdade. A certo ponto, entretanto, não resistiu:
-Benzinho?
Marcelo arrepiou-se só por ser chamado de
benzinho por ela. Será que achava que ele queria um caso sério? Respondeu o
mais friamente que pôde, porém da mesma forma que faria se realmente quisesse
algo a mais com a moça:
-Oi.
-Olha, tudo bem que eu não sei nada de
psicologia, mas qual a relação entre a parte do meu corpo que você deveria ter
tocado enquanto – ela hesitou como normalmente faz quem quer dizer
“transar” e não está entre pessoas mais íntimas ou precisamente em vias de
transar –, err, fazíamos aquilo e o trauma pela sua mãe? Assim, com todo
respeito, mas eu não entendo.
-Ah, sei lá! É psicologia, quem entende?
-Eu mesma não... E classificar o seu
desempenho? E escolher entre essas alternativas aqui pro tamanho, sabe,
daquilo? Não acha que é meio pessoal?
-Sim, mas o seu anonimato está garantido.
Eu vou depositar seu formulário naquela urna ali – apontou para o objeto, que
tinha a sigla FSSM em letras garrafais – e depois a entrego fechadinha, lacrada
para minha psicóloga.
-Uma urna? Como assim? Você tem que
transar – agora Carla estava com raiva, estado de humor no qual se perde
aqueles pudores habituais – com meio mundo de gente pra resolver um problema
psicológico? Psicóloga boa essa, hein? Meu filho, teu problema não é
psicológico, é mental!
Marcelo se animava, embora se mantivesse
sério. A urna funcionava para afastar relacionamentos. Mais um acerto. Calmo e
manipulador, esquivou-se:
-Olha, isso foi uma especialista que
falou. Me desculpe se eu perdi uma pessoa tão importante quando tinha só 13
anos e faria tudo pra tê-la aqui de volta em troca de todas as mulheres do
mundo. Mil desculpas, certo? – Carla já mudava de feição – Agora me dê licença,
vou no banheiro.
E foi depressa ao lavabo, como se
estivesse prestes a desabar em choro. Por cinco minutos, escutou, sorrindo,
Carla pedir desculpas e até prometendo uma “ajuda” no tratamento ao indicar-lhe
algumas amigas mais fáceis. Aí, no sexto minuto, seu celular começou a tocar.
Pediu que Carla o levasse.
-Quem é?
-Tua mãe.
terça-feira, 16 de abril de 2013
parai, chão
não sou o que fui
nem o que sou.
não sou o que era
pois ele acabou.
não vejo o que flui
e, quando vejo, passou.
para-o-chão fito os olhos
e na distração embarco.
perdido, me acho.
nem o que sou.
não sou o que era
pois ele acabou.
não vejo o que flui
e, quando vejo, passou.
para-o-chão fito os olhos
e na distração embarco.
perdido, me acho.
domingo, 7 de abril de 2013
angústia nossa de cada dia
Ela estava sentada na praia há um bom
tempo. Não sabia precisá-lo em minutos ou horas, só que passava um largo período
ali. Encontrava-se de costas para o mar porque olhava, com curiosidade, dois
velhinhos: o primeiro, mais sentado na bengala que no banco, a corcunda
acusando que a gravidade é mais forte que ele jamais havia suposto. Usava um
daqueles chapéus em forma de côco típicos da terceira idade, óculos de haste
escura e um colete cinza por cima da camisa branca. A segunda, aparentemente
mais jovem, sentada num banco com encosto, vestia um sobretudo com jeito de que
já fora elegantíssimo e mexia os próprios lábios com o indicador esquerdo,
protagonizando um gesto bobo e contraditoriamente pesado. Rita não conseguia
sair dali. Nem se lembrava do livro que trouxera para ler ao som do oceano
naquele meio de tarde nublado. Tampouco se dava conta dos ruídos marítimos:
estavam ali ela, o silêncio e os dois velhos.
O que mais estarrecia a moça jovem,
relativamente bonita, cabelos curtos, meio gordinha – culpa do último namorado,
que, além de galinha, era rico e a levava a ótimos restaurantes toda vez que
renovavam o relacionamento – eram os olhares dos dois: pareciam o mesmo.
Vazios. Semelhantes ao de um cachorro entediado após a morte do amado dono,
como se os seus corações houvessem petrificado embora continuassem
atravessáveis por pequenas doses de água. Corações de pedra, mas férteis.
Protegidos pois, caso contrário, explodem.
A angústia crescia em Rita. Não queria ter
um olhar vazio na sua velhice. Tinha planos, metas, amigos solícitos a ajudarem
quando bem necessitasse, livros a ler,
filmes a assistir. Como alguém pode, depois de viver (ou poder haver vivido)
tanto, ter um olhar sem conteúdo? Aquilo não iria ficar assim. Calçou as
sandálias, limpou-se da sempre inconveniente areia de praia e levantou-se.
-É complicado, querida.
Rita decidira falar com o velho – que tinha
cara mais simpática – com uma abordagem do tipo “tá um vento forte hoje, né?” e
passaria a tentar obter suas respostas com perguntas sutis, mas profundas como
a recém feita “esse ano tá passando muito ligeiro, não? Parece que o Natal foi
ontem...”. Pela resposta do seu Odair (logicamente, perguntara seu nome),
aproximava-se de seu objetivo.
-Como assim, seu Odair?
-Essa questão do tempo, sabe... É muito
difícil. Tanto que todo mundo tenta explicá-lo por metáforas, parábolas e tudo
mais. Nunca chegam pra dizer o que o tempo é exatamente, só sabem apontar e
dizer que o tempo é aquilo.
Rita fez uma expressão de aluno de ensino
fundamental em aula de cálculo 2. O velho emendou, sempre falando pausadamente,
voz grave e levemente rouca como a de qualquer ancião:
-Agora, por exemplo. Você falou do Natal e
que o ano passa rápido. Essa é a coisa mais óbvia sobre o tempo: ele passa. Mas
as pessoas, ao invés de falarem “o tempo passa”, preferem apontar para as
espinhas dos netos. Pensam naquilo, sabem o que é, mas preferem dar exemplos,
puxar outro assunto. Acho que isso é próprio da humanidade. Temos tanto medo que o tempo passe que
perdemos tempo sem saber o que fazer dele.
-E aí vivemos a angústia nossa de cada
dia.
Odair sorriu. A garota realmente prestava
atenção.
-Isso, isso.
Prosseguiu:
Prosseguiu:
-E vou te contar uma coisa: eu podia ter sido um dos grandes. Todo dia eu venho aqui e acabo por pensar
nisso. Sempre gostei muito de música, especialmente de jazz. Você gosta, Marta?
-Rita.
-Quê?
-O meu nome é Rita, senhor. Mas gosto sim.
Rita mentiu. Achava o jazz muito paradão, ritmo em excesso pra pouco movimento. Não que
ela entendesse de música e soubesse o conceito de ritmo ou movimento: só não se
digladiava ao escutar o ritmo nascido nos bares de Nova Orleans.
-Ah, perdão. Esse assunto me deixa
desnorteado. Pois bem. Eu era muito bom no saxofone. Tão bom que fui convidado
a ir para os Estados Unidos. Eu sabia tanto de inglês quanto os jovens hoje
entendem de música – Rita riu –, mas há linguagens que dispensam a fala. O
olhar, o gesto e, para mim, a mais bonita delas: a música instrumental.
Seu Odair perdeu-se em seu olhar mais uma
vez.
-E o senhor foi? – Rita tentou retorná-lo
à realidade. Num pequeno estalo, ele respondeu:
-Ah, sim. Quer dizer: não. E o melhor: não
sei se me arrependo. Embora eu pudesse haver sido um sucesso, aqui eu fiz uma
boa vida. Não devo nada a ninguém, trabalhei honestamente, tenho bons filhos,
netos inteligentes – o velho lembrou que um deles estava solteiro e que Rita
não era de se jogar fora, mas preferiu deixar o assunto para depois – e tudo
que sempre almejei.
-Mas será que lá você – Rita já se
considerou íntima o suficiente para tratá-lo informalmente – não teria tudo
isso? Digo, eu mesma conheço gente que foi para a Europa, Estados Unidos e até
Paquistão – ela tinha um tio, conhecido como “Evandro, o Doido”, que decidiu,
do dia para a noite, morar no Paquistão – e que se deram muito bem.
-Essa não é a questão, querida. Tudo pode
acontecer. Mas sempre fica aquele “e se”. Nunca me esqueço de quando meu
primeiro filho disse aos seus 10 aninhos de sabedoria que o pudim só era
gostoso daquele jeito porque todo dia tinha frango com purê.
Faz sentido, pensou Rita. Odair prosseguiu:
-O que eu quero dizer, minha filha – velho
tem mania de chamar qualquer um de filho – é que nada volta. Vi muita gente
passar a juventude fazendo coisas de velho para chegar na velhice achando que
ainda são jovens. Até chapinha de chocolate fazem. Fazem o que não querem para depois fazerem o que já quiseram. Só se
vive uma vez dos 17 até os 33 anos. Ao mesmo tempo, não dá pra fazer tudo o que
se quer, senão você nem chega aos 25. Sobremesa é bom, mas quem só come pudim
fica desnutrido e gordo. E não dá pra fugir disso: a vida é uma mistura do que
podemos com o que devemos fazer dela com uma pitada de nós mesmos.
-Você gosta de uma metáfora com culinária,
né? – perguntou Rita, sorrindo. Odair soltou uma gargalhada.
-É que na velhice você arruma tempo pra
cozinhar... – seguiu gargalhando. – Na verdade, de culinária gosto, mas, como
já te disse, não aprecio tanto assim as metáforas. Elas tornam a explicação
mais fácil, mas não explicam muito. Pessoas pensam em conceitos máximos sobre a
existência e o tempo, mas não os enunciam, talvez com medo de que sejam verdade.
E a verdade final é inconveniente: tudo acaba. Você, eu (provavelmente antes),
aquele cara de pau ali que não limpou a sujeira de seu cachorro, esse mar, o
agora e mesmo o que nem existe. E, se existe o belo, é porque existe o feio.
Cabe a cada um buscar o que lhe convém e interessa, senão, num estalo, estará
velho e sentado na orla da cidade, sem amigos ou confidentes.
Rita estranhou. Não era ele quem estava
satisfeito com a vida pacata que levara? Odair sorriu para continuar:
-Mas também se poderá ser um velho
solitário e realizado. Questão de perspectiva.
A moça estava boquiaberta. Nem reparou que
já estava escuro. Odair, sim:
-Querida, muitíssimo obrigado por me ouvir
e fazer companhia. Vocês, jovens, às vezes são muito imediatos, querem tudo e
não conseguem nada. Falta mistério. Mas isso é assunto pra outro dia, não? Já
está tarde, minha esposa deve estar preocupada.
Rita concordou, despediu-se e prometeu,
após muita insistência, adicionar o neto de seu Odair, Martinho, “numa dessas
conversas de computador aí”. Estava tarde e sentia fome. Foi a pé para casa,
pensando nas falas daquele senhor da fala mansa e firme. Chegou em casa e sua
mãe, de longe, disse:
-Ah, ainda bem, Rita! Chegou na hora do
jantar! Venha pra mesa, tá tudo quentinho!
Rita não respondeu, foi até a cozinha e a
beijou. Lavando as mãos e com o estômago doendo, perguntou:
-Mãe, o que tem pra jantar?
-Frango, purê e salada.
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