quarta-feira, 22 de maio de 2013

o formulário

Verônica, três meses depois de tomar a decisão – e de trair Marcelo, que, faça-se justiça, também a traíra, embora jure que fora obrigado a ir para a cama com Carlinha, (ex) amiga de Verônica – finalmente tomou coragem e uísque (e vodka, e cerveja, e caninha com mel e caipirinhas) o suficiente para acabar o namoro. Desabafava.
-Sabe o que é, Marcelinho? Você não me escuta. Sempre acha que tá bom. Não se interessa por saber a opinião dos outros. Não se interessa por saber a minha opinião. Tenha santa paciência, Marcelo!
-Mas amor...
Ela nem o deixava falar:
-Mas amor coisíssima nenhuma! Você nunca escuta! Já parou pra pensar em quão ruim você é por isso até mesmo no sexo? A própria Carlinha, aquela vaca, disse! Já tomei a decisão e não vou mudar, está tudo acabado!
Virou o resto da cerveja e ainda despediu-se magistralmente.
-Adeus! E pague a conta, você que escolheu esse bar ruim e caro!
Verônica, em seu piti de término de namoro, estava certa em uma coisa: ele não era muito de ouvir opiniões. Já custava-lhe muito prestar atenção em aulas importantes, quanto mais em pessoas. Nem gostava muito da agora ex-namorada: achou até bastante conveniente que fosse ela a terminar o relacionamento. Não ligaria para nada do que ela falou, mas prestou atenção a partir de quando as palavras “ruim” e “sexo” estavam perigosamente próximas no discurso. Ficou encucado e até com medo daquele desabafo. Será?
Passou uma semana e Verônica ligou dizendo que o amava e que quem falara tudo aquilo fora o álcool e não ela. A conversa não durou muito, já que quem atendeu o telefone foi a Carlinha. Dez anos mais tarde Verônica casaria-se com um surdo-mudo.
Decorreu-se um mês e Marcelo ainda estava com aquilo na cabeça: será que era tão ruim de cama assim? Será que a Carlinha, a Verônica e outras tantas sempre fingiam? O que ele tinha de bom, afinal? O que teria de melhorar?
Estava na sala de aula quando lhe veio à cabeça a brilhante solução: fazer formulários. Isso: formulários de satisfação das suas conquistas. Exatamente como aqueles de qualquer restaurante de macarrão, mas que fossem efetivamente respondidos e não servissem só para clientes esporádicos anotarem telefones ou tecerem rabiscos. Começou a fazer o rascunho ali mesmo. Algumas horas mais tarde, o Formulário de Satisfação Sexual do Marcelinho estava pronto.
Agora vinha a parte mais difícil: arrumar quem os respondesse. Mas um homem com o orgulho ferido atrai mais as mulheres, principalmente se, como Marcelinho, morar numa cobertura na beira da praia e for filho de um dos homens mais ricos do estado. Finalmente, transou com a Carla (que, apesar do nome, era menor que a Carlinha). Perguntou, finalizado o ato:
-E aí, gostou?
-Ai, foi show!
-Mesmo?
-Claro, por que você acha que eu mentiria?
“Talvez porque a gente jantou em outra cidade e veio de helicóptero pra cá?” foi o que ele pensou e quis, no fundo responder. Preferiu ater-se ao seu objetivo.
-Então tá. Olha... É que, como você sabe, eu perdi minha mãe muito cedo – Carla assustou-se –, então minha psicóloga disse pra eu aplicar esses questionários aqui para as minhas parceiras sexuais. Não é nada demais, só pra auxiliar e desvendar alguns aspectos do meu subconsciente e ter algum resultado nesse tratamento que eu faço desde que, você sabe – ele já percebia uma expressão de pena na moça –, aconteceu...
-Claro! Ajudo sim! Passa isso pra cá!
E começou a responder. Volta e meia, fazia uma cara de espanto ou estranheza, mas respondia como se estivesse numa prova da faculdade. A certo ponto, entretanto, não resistiu:
-Benzinho?
Marcelo arrepiou-se só por ser chamado de benzinho por ela. Será que achava que ele queria um caso sério? Respondeu o mais friamente que pôde, porém da mesma forma que faria se realmente quisesse algo a mais com a moça:
-Oi.
-Olha, tudo bem que eu não sei nada de psicologia, mas qual a relação entre a parte do meu corpo que você deveria ter tocado enquanto – ela hesitou como normalmente faz quem quer dizer “transar” e não está entre pessoas mais íntimas ou precisamente em vias de transar –, err, fazíamos aquilo e o trauma pela sua mãe? Assim, com todo respeito, mas eu não entendo.
-Ah, sei lá! É psicologia, quem entende?
-Eu mesma não... E classificar o seu desempenho? E escolher entre essas alternativas aqui pro tamanho, sabe, daquilo? Não acha que é meio pessoal?
-Sim, mas o seu anonimato está garantido. Eu vou depositar seu formulário naquela urna ali – apontou para o objeto, que tinha a sigla FSSM em letras garrafais – e depois a entrego fechadinha, lacrada para minha psicóloga.
-Uma urna? Como assim? Você tem que transar – agora Carla estava com raiva, estado de humor no qual se perde aqueles pudores habituais – com meio mundo de gente pra resolver um problema psicológico? Psicóloga boa essa, hein? Meu filho, teu problema não é psicológico, é mental!
Marcelo se animava, embora se mantivesse sério. A urna funcionava para afastar relacionamentos. Mais um acerto. Calmo e manipulador, esquivou-se:
-Olha, isso foi uma especialista que falou. Me desculpe se eu perdi uma pessoa tão importante quando tinha só 13 anos e faria tudo pra tê-la aqui de volta em troca de todas as mulheres do mundo. Mil desculpas, certo? – Carla já mudava de feição – Agora me dê licença, vou no banheiro.
E foi depressa ao lavabo, como se estivesse prestes a desabar em choro. Por cinco minutos, escutou, sorrindo, Carla pedir desculpas e até prometendo uma “ajuda” no tratamento ao indicar-lhe algumas amigas mais fáceis. Aí, no sexto minuto, seu celular começou a tocar. Pediu que Carla o levasse.
-Quem é?
-Tua mãe.

terça-feira, 16 de abril de 2013

parai, chão

não sou o que fui
nem o que sou.
não sou o que era
pois ele acabou.
não vejo o que flui
e, quando vejo, passou.
para-o-chão fito os olhos
e na distração embarco.
perdido, me acho.

domingo, 7 de abril de 2013

angústia nossa de cada dia


Ela estava sentada na praia há um bom tempo. Não sabia precisá-lo em minutos ou horas, só que passava um largo período ali. Encontrava-se de costas para o mar porque olhava, com curiosidade, dois velhinhos: o primeiro, mais sentado na bengala que no banco, a corcunda acusando que a gravidade é mais forte que ele jamais havia suposto. Usava um daqueles chapéus em forma de côco típicos da terceira idade, óculos de haste escura e um colete cinza por cima da camisa branca. A segunda, aparentemente mais jovem, sentada num banco com encosto, vestia um sobretudo com jeito de que já fora elegantíssimo e mexia os próprios lábios com o indicador esquerdo, protagonizando um gesto bobo e contraditoriamente pesado. Rita não conseguia sair dali. Nem se lembrava do livro que trouxera para ler ao som do oceano naquele meio de tarde nublado. Tampouco se dava conta dos ruídos marítimos: estavam ali ela, o silêncio e os dois velhos.
O que mais estarrecia a moça jovem, relativamente bonita, cabelos curtos, meio gordinha – culpa do último namorado, que, além de galinha, era rico e a levava a ótimos restaurantes toda vez que renovavam o relacionamento – eram os olhares dos dois: pareciam o mesmo. Vazios. Semelhantes ao de um cachorro entediado após a morte do amado dono, como se os seus corações houvessem petrificado embora continuassem atravessáveis por pequenas doses de água. Corações de pedra, mas férteis. Protegidos pois, caso contrário, explodem.
A angústia crescia em Rita. Não queria ter um olhar vazio na sua velhice. Tinha planos, metas, amigos solícitos a ajudarem quando bem necessitasse,  livros a ler, filmes a assistir. Como alguém pode, depois de viver (ou poder haver vivido) tanto, ter um olhar sem conteúdo? Aquilo não iria ficar assim. Calçou as sandálias, limpou-se da sempre inconveniente areia de praia e levantou-se.
-É complicado, querida.
Rita decidira falar com o velho – que tinha cara mais simpática – com uma abordagem do tipo “tá um vento forte hoje, né?” e passaria a tentar obter suas respostas com perguntas sutis, mas profundas como a recém feita “esse ano tá passando muito ligeiro, não? Parece que o Natal foi ontem...”. Pela resposta do seu Odair (logicamente, perguntara seu nome), aproximava-se de seu objetivo.
-Como assim, seu Odair?
-Essa questão do tempo, sabe... É muito difícil. Tanto que todo mundo tenta explicá-lo por metáforas, parábolas e tudo mais. Nunca chegam pra dizer o que o tempo é exatamente, só sabem apontar e dizer que o tempo é aquilo.
Rita fez uma expressão de aluno de ensino fundamental em aula de cálculo 2. O velho emendou, sempre falando pausadamente, voz grave e levemente rouca como a de qualquer ancião:
-Agora, por exemplo. Você falou do Natal e que o ano passa rápido. Essa é a coisa mais óbvia sobre o tempo: ele passa. Mas as pessoas, ao invés de falarem “o tempo passa”, preferem apontar para as espinhas dos netos. Pensam naquilo, sabem o que é, mas preferem dar exemplos, puxar outro assunto. Acho que isso é próprio da humanidade. Temos tanto medo que o tempo passe que perdemos tempo sem saber o que fazer dele.
-E aí vivemos a angústia nossa de cada dia.
Odair sorriu. A garota realmente prestava atenção.
-Isso, isso.
Prosseguiu:
-E vou te contar uma coisa: eu podia ter sido um dos grandes. Todo dia eu venho aqui e acabo por pensar nisso. Sempre gostei muito de música, especialmente de jazz. Você gosta, Marta?
-Rita.
-Quê?
-O meu nome é Rita, senhor. Mas gosto sim.
Rita mentiu. Achava o jazz muito paradão, ritmo em excesso pra pouco movimento. Não que ela entendesse de música e soubesse o conceito de ritmo ou movimento: só não se digladiava ao escutar o ritmo nascido nos bares de Nova Orleans.
-Ah, perdão. Esse assunto me deixa desnorteado. Pois bem. Eu era muito bom no saxofone. Tão bom que fui convidado a ir para os Estados Unidos. Eu sabia tanto de inglês quanto os jovens hoje entendem de música – Rita riu –, mas há linguagens que dispensam a fala. O olhar, o gesto e, para mim, a mais bonita delas: a música instrumental.
Seu Odair perdeu-se em seu olhar mais uma vez.
-E o senhor foi? – Rita tentou retorná-lo à realidade. Num pequeno estalo, ele respondeu:
-Ah, sim. Quer dizer: não. E o melhor: não sei se me arrependo. Embora eu pudesse haver sido um sucesso, aqui eu fiz uma boa vida. Não devo nada a ninguém, trabalhei honestamente, tenho bons filhos, netos inteligentes – o velho lembrou que um deles estava solteiro e que Rita não era de se jogar fora, mas preferiu deixar o assunto para depois – e tudo que sempre almejei.
-Mas será que lá você – Rita já se considerou íntima o suficiente para tratá-lo informalmente – não teria tudo isso? Digo, eu mesma conheço gente que foi para a Europa, Estados Unidos e até Paquistão – ela tinha um tio, conhecido como “Evandro, o Doido”, que decidiu, do dia para a noite, morar no Paquistão – e que se deram muito bem.
-Essa não é a questão, querida. Tudo pode acontecer. Mas sempre fica aquele “e se”. Nunca me esqueço de quando meu primeiro filho disse aos seus 10 aninhos de sabedoria que o pudim só era gostoso daquele jeito porque todo dia tinha frango com purê.
Faz sentido, pensou Rita. Odair prosseguiu:
-O que eu quero dizer, minha filha – velho tem mania de chamar qualquer um de filho – é que nada volta. Vi muita gente passar a juventude fazendo coisas de velho para chegar na velhice achando que ainda são jovens. Até chapinha de chocolate fazem. Fazem o que não querem para depois fazerem o que já quiseram. Só se vive uma vez dos 17 até os 33 anos. Ao mesmo tempo, não dá pra fazer tudo o que se quer, senão você nem chega aos 25. Sobremesa é bom, mas quem só come pudim fica desnutrido e gordo. E não dá pra fugir disso: a vida é uma mistura do que podemos com o que devemos fazer dela com uma pitada de nós mesmos.
-Você gosta de uma metáfora com culinária, né? – perguntou Rita, sorrindo. Odair soltou uma gargalhada.
-É que na velhice você arruma tempo pra cozinhar... – seguiu gargalhando. – Na verdade, de culinária gosto, mas, como já te disse, não aprecio tanto assim as metáforas. Elas tornam a explicação mais fácil, mas não explicam muito. Pessoas pensam em conceitos máximos sobre a existência e o tempo, mas não os enunciam, talvez com medo de que sejam verdade. E a verdade final é inconveniente: tudo acaba. Você, eu (provavelmente antes), aquele cara de pau ali que não limpou a sujeira de seu cachorro, esse mar, o agora e mesmo o que nem existe. E, se existe o belo, é porque existe o feio. Cabe a cada um buscar o que lhe convém e interessa, senão, num estalo, estará velho e sentado na orla da cidade, sem amigos ou confidentes.
Rita estranhou. Não era ele quem estava satisfeito com a vida pacata que levara? Odair sorriu para continuar:
-Mas também se poderá ser um velho solitário e realizado. Questão de perspectiva.
A moça estava boquiaberta. Nem reparou que já estava escuro. Odair, sim:
-Querida, muitíssimo obrigado por me ouvir e fazer companhia. Vocês, jovens, às vezes são muito imediatos, querem tudo e não conseguem nada. Falta mistério. Mas isso é assunto pra outro dia, não? Já está tarde, minha esposa deve estar preocupada.
Rita concordou, despediu-se e prometeu, após muita insistência, adicionar o neto de seu Odair, Martinho, “numa dessas conversas de computador aí”. Estava tarde e sentia fome. Foi a pé para casa, pensando nas falas daquele senhor da fala mansa e firme. Chegou em casa e sua mãe, de longe, disse:
-Ah, ainda bem, Rita! Chegou na hora do jantar! Venha pra mesa, tá tudo quentinho!
Rita não respondeu, foi até a cozinha e a beijou. Lavando as mãos e com o estômago doendo, perguntou:
-Mãe, o que tem pra jantar?
-Frango, purê e salada.

domingo, 24 de março de 2013

beleza, marcinho, gerdalva e claudinha


 O que diferencia o homem – no sentido homo sapiens do termo – dos outros animais, dizem, é a racionalidade. Eu discordo. No máximo, concordo com ressalvas. Pra mim, a característica mais importante da humanidade seria o apreço pela beleza. O gosto pela estética. Aos apressados, adianto: isso não é uma defesa da vaidade. É, meramente, uma constatação. Explique-se bem: foi naquele momento, há milhares de dezenas de anos, em que um homem (ou uma mulher - e aqui reitero o sentido amplo do termo, o qual repetirei com frequência) parou para apreciar uma paisagem, o som do vento nas folhas, a beleza de sua mulher, o sabor de uma costelinha de mamute ou sabe-se lá o quê que a espécie passou a ser diferente de qualquer outra a pisar neste pequenino planeta.
O apreço pelo belo nos fez humanos. Claro que alguns outros mamíferos têm uma certa distinção entre o bom e o ruim, o agradável e o repugnante. Mas somos diferenciados. A beleza, aquela beleza profunda, do tipo que afaga os ânimos do mais exaltado entre os raivosos, só o homem pode sentir. Mesmo que chegue a prescindir do uso de seus cinco sentidos. Ele sabe fazer e apreciar uma boa música como nenhum outro animal. Consegue reproduzir a lua e as estrelas tão fiel à realidade como eu seria se me casasse com a Emma Watson. É capaz de cozinhar uma refeição de sabor indescritível e aproveitá-la como ela merece. Ou alguém já viu algum cão por aí fazendo questão de comer uma carne sem nervo ou um X-Bacon sem ovo e sem salada? Há a exceção daqueles muito bem prendados cachorrinhos de madame, que fazem cara feia se o champignon do lanche da tarde veio com sal além da conta. Eles são a exceção da regra: apreciam (de uma maneira bem fresca, é verdade) o belo, mas tão somente porque são cachorrinhos de madame.
É a busca implacável pelo belo e pelo que ele faz sentir que move a humanidade. Esclareça-se de vez: não se fala da beleza galã-de-novela-das-oito ou da formosura estética de um quadro de Monet. Fala-se também delas. Pois cada um tem para si um modelo de beleza – o que explica o gosto duvidoso de pais cujo primogênito chama-se Josicleiton ou Edivânderson – e buscará tê-lo sempre em sua volta. Por isso é que tem gente que prefere música clássica a forró e vice-versa. O conceito máximo de beleza é aquilo que não impediria Mozart de convidar uma morena para dançar ao som de Luiz Gonzaga. Talvez a muito provável falta de aptidão biológica para rebolar do austríaco o fizesse, mas não o conceito-mor de beleza.
É aí que me lembro da história do Márcio. Da época que ele era Marcinho.
O Márcio era filho de um mecânico lá de perto da rua. O conheci porque sou da época em que as crianças falavam mais e digitavam menos. Era apaixonado, doido de pedra por uma loirinha também das redondezas, tão bonita quanto seu nome lhe era inapropriado: a Gerdalva. Embora ele nunca houvesse confessado ou mesmo falado a respeito - assim são os homens -, todos da turma sabiam que ele era louquinho pela Claudinha. “Claudinha” porque até então não sabíamos seu nome e, ao contrário de sua mãe, tínhamos mais tato para eleger nomes de meninas atraentes. Seu único problema era o desinteresse que jorrava de sua expressão, como se nada no mundo pudesse lhe chamar e manter a atenção por mais de quinze minutos.
Jogávamos futebol num terreno que atualmente é mais uma loja de móveis daquelas que nunca tem alguém comprando, mas parecem existir desde sempre. Mas essa só parece, pois ali o Márcio, eu, o Juninho, o André Cabeção e tantos outros praticávamos a arte e a luta (no meu caso, zagueiro clássico, mais luta do que arte) do esporte bretão. E o Márcio era um craque de bola. Muita gente jurava que ele ia virar um profissional dos bons. Falava-se até em seleção, fama, o pessoal da rua sendo entrevistado após ele ser vendido à Roma (sou da época que a Roma inspirava admiração e respeito, tanto que ninguém errava seu gênero), esses eventos todos que acompanham um jogador meia boca hoje em dia. Mas o Márcio tinha um problema: não ajudava a marcar nunca.
-Volta, Márcio! Marca o Pelezinho!
E o Márcio não voltava. O Pelezinho, muito embora seu apelido não sugira, era mais branco que uma nuvem de verão. Mas essa já é outra história.
-Marca o Pavão, Márcio!
Naquela vez, a voz não veio do campo. E era mais fina que o padrão dos jogos de pelada. Era a Claudinha. Chovia muito, e ela teve que se abrigar na tenda que improvisamos para termos uma sombrinha. Brasileira que é, aproveitou para acompanhar o cotejo. E o Márcio a obedeceu. Correu como um louco, tomou a bola do Pavão, tabelou comigo, driblou um, driblou dois e quase fez um golaço de cobertura. O André Cabeção até hoje jura de pé junto que um raio atravessou os céus em sinal de espanto no exato momento em que Márcio começou a correr.
Delírios à parte, o Márcio, desde então, começou a marcar. E ficou bom nisso. Foi um dos meias mais completos entre os que nunca se tornaram profissionais. Tínhamos mais idade e menos interesse em jogar futebol todo dia quando ele decidiu ir abordar a Claudinha. O intento pode ser resumido em uma fala da já muito bem torneada moça:
-Ah, Márcio, você é bonitinho, fala bem, sabe jogar bola como ninguém, mas sei lá... Futebol não dá futuro. Meu pai mesmo diz que é coisa de deliquente, de desocupado. Que eu tenho que buscar um rapaz de cultura, sabe? Alguém que combine com um terno, com um óculos de leitura.
Márcio, é claro, abateu-se tremendamente. Ficou tão consternado que esqueceu-se: a Claudinha fora criada pela mãe. E nem tinha padrasto, tio, avô ou qualquer homem que pudesse inspirar o trato paternal. Largou, aos poucos e sob inúmeros protestos (inclusive os meus), o futebol. Trocou a bola pela caneta, as chuteiras pelos livros e o tempo treinando lançamentos pelo de aula – que aconteciam, aliás, no mesmo horário.
Continuou a conversar, volta e meia, com a Claudinha. Ele era, mesmo, doidinho por ela. Ela comentava que gostava de uma música, ele aprendia a tocar violão e a dançar. A Claudinha citava uma passagem de um autor, o Márcio lia três livros do tal escritor. Dizia que gostava de filé com fritas, ele aprendia a fazer picanha com batata recheada. E assim seguiu. Teve até namoricos com outras garotas, mas sempre pensava na loirinha da rua. Imaginava se ela teria ciúmes se soubesse que ele perambulava com outras moças pelos cinemas e bares da cidade. Até que, finalmente, começaram a namorar. Poucas vezes eu vi um rapaz tão realizado. Feliz e careca: ele recém tinha passado no vestibular para uma engenharia de nome difícil, mas que dá dinheiro.
Pobre Márcio. Mês e meio depois, a Claudinha, aquela miserável, o deixou. Sem nem dar um tchau, deixou uma carta com dois parágrafos e péssimo português dizendo que nunca quis nada com ele e não poderia prosseguir (palavra que ela escreveu com cedilha) num relacionamento assim. Márcio, coitado, ficou arrasado. Claudinha, bandida, agora sim merecia chamar-se Gerdalva. Maldita: sempre fora Gerdalva, nunca Claudinha!
E aqui reside o ponto principal da história. Ao tanto buscar a beleza de Gerdalva, descobriu outras belezas. O dom da música, o prazer da boa literatura, o prazer concentrado num contra-filé mal passado. Tornou-se belo ele mesmo ao tanto tentar alcançar não exatamente a beleza física da Gerdalva, mas o sentir-se bem que move a humanidade. Isso que o motivara e o fizera entender melhor o conceito máximo do qual falei mais acima e como o mundo pode ser belo por mais desagradável que seja.
Márcio formou-se com louvores, casou-se com uma morena espetacular e hoje mora numa casa simples, de muito bom gosto, perto de onde morávamos todos. Combina com um terno e com um óculos de leitura do mesmo jeito que com uma regata e um par de chinelos de borracha.
E a Gerdalva? Bem, a Gerdalva voltou a ser Claudinha. Deixou de ter aquele seu olhar desinteressado habitual quando resolveu ser pintora e encontrou sua vocação. Foi num belo dia de chuva.

quinta-feira, 29 de novembro de 2012

carta de um velho




Não é fácil ser um velho. Principalmente condenado à solidão, como o que vos fala. Hoje, pela última vez antes de me manifestar a respeito, senti-me vulnerável à morte. Pude presenciar a fragilidade da vida. Ah, o quanto eu daria por um corpo novinho! Será que nunca inventaram transplante de cérebro? Por que tenho que estar preso a este fraco corpo, sujeito, desde que eu nasci, a acidentes, doenças, balas e que é, às vezes, refém de si mesmo? Quão magnífica seria a humanidade se feita de imortais! Ou nem isso: peço, somente, cérebros imortais. Inventem uma máquina capaz de oxigenar e nutrir os cérebros das grandes mentes humanas, permitindo que se expressem! Já inventamos máquinas que nos fazem voar, nadar, sair do planeta e ver outras galáxias que os bisnetos dos nossos netos nunca chegarão perto! Por que diabos não inventamos a máquina definitiva, aquela potente o suficiente para driblar o nosso único tormento, a nossa única certeza e, ainda assim, o único motivo para querermos aproveitar os dias que nos restam? Porque sim, estes dias estão contados, mas temos um problema: ninguém desvendou tal matemática!
Perdoem os devaneios deste velho solitário. É que já quase não tenho forças para me levantar. Um dia, quando estiverem todos velhos – pois este dia chegará aos mais afortunados -, alguns hão de me entender. Olho para meus músculos e pergunto-me por que eles têm prazo de validade; vejo minha imagem desgastada no espelho e pergunto-me se o tempo foi o único responsável por estas rugas e cicatrizes. Sinto o palpitar do meu coração, que bate desde que estive na barriga da minha finada e abençoada mãe, e torço para que ele não pare agora. Não agora, não hoje e nem amanhã. Oh, coração, bata enquanto haja esperança! Resista até que alguém se apodere da minha sugestão e salve o meu cérebro! Aí, não mais precisarei de ti: serei só eu. Pois, se tem algo que aprendi nesses meus setenta e tantos anos, coração, é que ninguém é o próprio corpo. Longe disso: cada um é o que faz e cada um faz o que é – salvo alguns enganos, mas nada que fuja da normalidade. Nossos rostos, um dia magníficos por obra e graça da juventude, um dia virarão caveira. E aí só restará o que fizemos: filhos, netos, amores e desamores, ações e omissões. Restará o que falamos. Restará um legado – ou uma estátua, para os mais importantes. Nomes em livros de história que serão estudados e depois esquecidos ou admirados. Quartos empoeirados, saudosos da vida que antes jorrava pelos seus rincões. Fotografias descoloridas de rostos e corpos que jamais serão vistos ou repetidos – no máximo, lembrados.
Que meu corpo opere por muito tempo! Que eu seja por muitos anos o velho solitário que vos fala, cada dia mais velho e mais agradecido por ter despertado. Mais agradecido por ter mais uma oportunidade de comer uma boa carne, tomar um bom uísque e fumar algo que preste. Pois tenho certeza, e fico muito triste em admiti-lo, que há pratos que não mais saborearei. Há ruas pelas quais nunca mais voltarei a caminhar. Cigarros que sempre jurei que fosse fumar nunca estarão em minha boca. Os tantos colchões sobre os quais dormi já não sentirão o meu corpo cansado em cima de si. Livros, oh céus! Quantos livros eu juro que vou ler desde que tinha os meus quinze anos e nunca sequer os comprei! Filmes que adoro e não sei se os tornarei a assistir. Grandes amigos que perdi e perderei...
Hoje, este pobre velhote que vos fala teve o seu momento Hamlet. Mas, ao contrário da personagem, não preciso de nenhuma caveira para isso. Sempre me achei inteligente – mais porque os outros o diziam de mim do que por outra coisa. Ah, como sinto falta da minha juventude! Aquele poder incrível de achar que qualquer doença será driblada com facilidade pelo ágil espírito que temos quando jovens! Aquela sensação maravilhosa de que há tempo para o que queremos, haverá um dia em que a oportunidade de fazer isso ou aquilo chegará, como certo é o nascer do sol e o girar da Terra. Quão triste me senti quando me dei conta de que não, não há tempo para tudo. Quando percebi que a oportunidade para ir ao natal em Nova Iorque não chegará, que não poderei ir curtir o carnaval do Rio, que não posso mergulhar com os golfinhos da Nova Zelândia, e se lá existirem golfinhos - de que adianta saber se não poderei conferir? Prefiro ficar ignorante, contemplar o nada, desestimular meu cérebro! Vai que, um belo dia, ele comunga com o resto do meu corpo e vira um nada de vez?
Pó eu tornarei, mas me perdoe quem disse que de lá viemos - não me lembro o nome do cristão, sinal de que minhas preces pela ignorância são ouvidas. Eu mesmo não vim de pó nenhum. Eu vim do nada. Eu era nada, até que me dei conta que eu era alguma coisa. Como me arrependo de não haver pedido que meus pais registrassem essa data! Se eu descobrisse quando foi esse dia abençoado, iria agora mesmo no cartório para que mudassem a data do meu nascimento. Porque não, eu não nasci quando era uma máquina de instintos que berrava como o animalzinho que já fui. Nasci quando me dei conta que sou eu. Quando, pela primeira vez, senti o prazer de ter um corpo todo sujeito ao meu arbítrio. Nascemos, amigos, neste momento, quando nos damos conta que temos um corpo inteiramente ao dispor de nossas consciências.
Se assim é, morremos quando percebemos que ele já não nos é fiel. Não morremos a morte morrida, aquela em que se adormece para sempre – ou seja, simplesmente voltamos ao que éramos antes de nos darmos conta de que somos algo. Quando vemos que o nosso corpo irá fraquejar, que ele está sujeito a qualquer intempérie como uma formiga está a um passo apressado e assassino. Julgamos que somos fortes, até que chega uma gripe pesada ou uma dor de dente. Um pé quebrado e dolorido que nos impede de pensar e nos coloca no chão. Que impede que nos aproximemos da divindade. Maldito seja o dia em que me dei conta disso! Em que comecei a me preocupar! Faz tempo, é verdade, mas desde então tive certeza de que pessoas pelas quais eu passo e nem sequer tenho a boa educação de lhes dar uma saudação ou desejar um singelo bom dia nunca mais tornarão a ver o meu rosto, a desfrutar da minha presença. Alguns (muitos) nem sequer me viram! Como não percebem que é uma chance única, criada por esse sacana chamado acaso, apelidado por muitos de destino?
Tudo será mais fácil quando ao pó eu for. Se a morte começa quando nos damos conta que ela existe, ela nos acompanha toda a vida. Uma bela acompanhante, diga-se! Pensem que sou louco, mas considero a morte uma grande amiga – não só uma companheira de viagem. Ou alguém tem outra definição para amigo que não alguém que lhe acompanha por toda a sua vida, momentos bons e ruins, lembrando-lhe que eles são únicos e que um dia tudo isso há de terminar? Ah, minha grande amiga Morte! Amiga verdadeira, que me dá um choque de realidade a cada momento que me recordo quem sou. Aí está outra coisa que este velhote pode ensinar: amizade mesmo é aquela que lhes diz a realidade. Ainda bem que me envolvi contigo, Morte, e não com falsas promessas de vida eterna ou de outras vidas. Pois sim, é tentador conviver com a ideia de que voltarei ou de que me libertarei deste corpo que hoje dói como se avisasse que tem prazo de validade (o que já sei desde que comecei a morrer). Respeito, porém, aqueles que não pensam assim: cada um é livre para escolher suas amizades. Só acho que amigo bom é aquele que me dá um tapa para que acorde, não o que me estupefaz a fim de me proporcionar doces sonhos - que são bons, mas irreais.
Fique claro: não é que eu não queira ver minha consciência livre do meu corpo e indo de encontro aos meus amados já ausentes desse mundo para depois esperar os que ainda irão. Torço muito por isso, aliás. Torço, mas não acredito: é como me senti em relação ao meu time durante mais ou menos metade da minha vida. Quero tanto que até agora, enquanto escrevo este desabafo como o velho que sou, não me sai da cabeça que existe a chance de que inventem a tal máquina. Chances mínimas, mas como a de eu existir! É só pensar como fui sortudo de que meu pai encontrasse minha mãe no momento certo para eu vir à tona – eu, e não uma outra combinação genética qualquer. Probabilidade tão diminuta como a de eu encontrar a minha esposa em um lugar ao qual quase desistira de ir. Tão pequena como a de meus filhos terem nascido tão belos, cópias da mãe.
E isso, meus caros, é a nossa existência: a vitória de pequenas frações de probabilidade. E o confronto constante delas com a maior das frações, tão grande que é um número inteiro: a morte. Nossa angústia existencial nasce daí, do embate entre as inúmeras possibilidades que temos frente à única certeza da vida. E aí o tempo passa e vemos que elas estão diminuindo. Então começamos a morrer enquanto elas diminuem em tal proporção que chegam a uma só. Que a última probabilidade da minha vida seja a de que inventem a máquina. Ou que ao menos a batizem com o meu nome. Caso contrário, meus feitos se desintegrarão como meus ossos e, em alguns anos, não passarei de uma fotografia descolorida. De um anônimo na história, de um velho louco que escreveu uma carta, julgo eu, bastante perturbadora. Mas que, talvez, conseguiu algumas novas amizades para minha fiel companheira.
Morte, agradeça-me por esses novos amigos da melhor forma: não venha me buscar. Pelo menos não tão cedo. Meu corpo fraqueja, mas minha mente vive. Dê-me licença, amiga, que tenho outras cartas para escrever. Livros para ler, filmes para rever, pessoas a saudar. Boa noite e até o mais próximo do nunca possível, pois ainda tenho umas possibilidades para aproveitar. Posso ser um velho, posso estar sozinho, mas uma coisa te garanto: minha torcida é pé quente. Tem dúvida? É só olhar os troféus ganhos por meu time.
Passar bem, amiga. Espero nunca te ver. Dormirei de meia. Só pra garantir.

terça-feira, 25 de setembro de 2012

O Trigo e a cagada do pombo


Meu irmão me contou, dia desses, que presenciara uma cena que lhe causou espanto: um pombo cagando em outro. Isso mesmo: viu, com os próprios olhos, uma destas nem tão amadas criaturas urbanas defecando sobre uma de suas companheiras de espécie. E eu lhe respondi que havia um quê de poesia nisso. Supondo um universo mágico que tantos acreditam que existe, imaginei que talvez este acontecimento não fosse um mero produto do acaso. Não: foi uma grande vingança.
Tudo começa com a vida de um protagonista chamado, digamos, Trigo. Já chegou ao mundo com o fardo de ser chamado por um nome de planta. Mas se contentou: antes Trigo que, sabe-se lá, Girassol, Fruta-pão ou Joio. Apelidado de Triguinho desde os oito anos, foi um aluno mediano durante o colégio, mais por sua falta de interesse que por sua capacidade. Aos catorze, apaixonou-se por uma menina e contou isso a um amigo. Dez anos depois, o amigo e a moça se casaram após um longo e estável relacionamento construído desde a escola. Triguinho não foi sequer convidado para a festa.
Triguinho, aos dezessete, não acreditava mais em destino. Para ele, tudo era produto e origem do acaso. Por isso, parou de crer que usar a mesma cueca suja daquela vitória épica nos jogos seguintes faria o seu time ganhar o campeonato – além de ser um bocado mais higiênico. Não via relação entre a sua presença no estádio e a derrota da equipe, embora alguns de seus amigos houvessem criado a chamada “Pergunta Preventriga”, que consistia em perguntar a Triguinho se iria ao jogo para evitar qualquer estresse ou contratempo ao irem ao estádio presenciar um revés do clube.
E o ditado “azar no jogo, sorte no amor” não se aplicava a Triguinho. Depois da desilusão dos catorze anos, deixou o amor de lado e perdeu várias oportunidades de aproveitar-se do seu erro. Perdeu, inclusive, o amor de Judite, que era feia aos catorze - quando chegou a se declarar a Triguinho -, mas porque a puberdade chegaria tardiamente para a garota que viraria Judite Cardozo, famosa jornalista brasileira que, dizem, só não foi eleita a musa do ano por uma revista internacional porque trabalharia anos depois para a concorrente da publicação ou porque teria recusado um convite para jantar do editor-chefe. Na verdade, não foi escolhida porque a vencedora era mais bonita mesmo.
Triguinho teve dúvidas para escolher sua profissão. Escolheu Administração e se formou com louvores. Para um descrente do destino, um universo profissional que, ao menos em teoria, valoriza o empreendorismo agradou a Triguinho. Mas Triguinho não dava sorte. Suas ideias pareciam, simplesmente, não funcionar. Abriu alguns tantos negócios, trabalhou para algumas firmas, sempre sem sucesso. Resolveu dar-se férias: homem prudente, tinha algumas reservas para viajar por algum tempo. Deu tchau e bênção para a família e os amigos e partiu para a Austrália por dois meses, Estados Unidos por mais dois e Europa por três. Quando embarcou na aventura, tinha certeza que voltaria com alguma ideia brilhante de negócio ou produto que lhe proveria o sustento pelo resto da vida.
Mas não. Voltou com um filho, produto de uma camisinha mal fabricada e cujo recall fora feito na noite em que Triguinho consumou o ato com uma portuguesa que havia conhecido na Austrália e que havia reencontrado ao acaso na Irlanda. “Ao acaso” porque Triguinho não acreditava em coincidências. Mas a portuguesa, sim: essa foi a principal razão para que ela dormisse com o rapaz naquela trágica noite e não, como ele pensara, suas habilidades (nem tão) formidáveis na sinuca.
Anos depois, Triguinho percebeu isso. Sentado num gramado público, percebeu que, apesar de ser o acaso a força-motriz do mundo, tudo acontece por uma razão. E mais: as pessoas gostam que essa razão esteja associada a elas. E esse foi o momento Eureka de Trigo. Ali, naquele dia ensolarado, sentado despretenciosamente num gramado a três quadras de onde vivera toda a vida, teve uma ideia genial de negócio. Um estalo que revolucionaria o mercado, causaria uma reviravolta em sua vida e na de seus futuros clientes. Sorrindo, resolveu não perder tempo e ir correndo para casa, onde anotaria os pontos principais da ideia e os guardaria a quinze chaves, pois sete não eram suficientes para o prudente e azarado Triguinho. Só que, ao atravessar a rua, sentiu algo em sua careca – mencione-se que Triguinho era calvo desde os dezenove e careca desde os vinte e dois – e olhou para cima. Era um pombo. Um pombo que cagou na sua careca. No meio da rua. Peraí... no meio da rua?
E assim se encerrou a trajetória de Triguinho entre os viventes. A notícia do atropelamento trágico de um empresário e pai de dois filhos – sim, dois porque uma antiga (e muitíssimo feia) namorada o acusara de tê-la engravidado e, embora nunca houvessem transado, o exame de DNA deu positivo e Triguinho teve de assumir a criança, que conseguia ser mais feia que a mãe – não comoveu muita gente além daqueles que o conheciam. No enterro, o padre, contratado pela mãe de Triguinho, clamou que sua alma fosse bem recebida no Paraíso e gozasse da vida eterna em paz.
Mas essa não era a vontade de Triguinho. Não agora.
-Eu quero reencarnar.
-Tudo bem. Então, por favor, dirija-se ao purgatório. É no terceiro andar, uma porta grande, dourada e cheia de buracos, não tem erro.
-Mas senhora... Perdão, eu devo chamar um anjo de senhor ou senhora? Ou senhorita, talvez?
-Não importa, o que o senhor se sinta mais à vontade.
-Ok, então. É que você não entende: eu quero reencarnar como um animal.
-Como um animal? Ok, tudo bem. Mas qual? Devo alertar ao senhor que reencarnar como um cão não vem com a garantia de que receberá uma boa criação como a que acredito que o senhor deu aos seus cachorrinhos...
-Não, senhora. Eu não quero ser um cachorro. Eu quero ser um pombo.
O anjo se surpreendeu. Essa era nova. Finalmente alguma coisa além do “Paraíso, último andar”, “Inferno, espere que ônibus passe no lado de fora” e “Purgatório, terceiro andar, portão dourado e esburacado”. Teve curiosidade e, apesar do dever de manter a postura profissional e desinteressada, soltou um sorriso de canto de boca e perguntou:
-Perdoe a indelicadeza, senhor, mas por que alguém desejaria reencarnar, sabe, como um pombo? É algum fetiche, desejo antigo ou algo do tipo?
Triguinho perdoou a indelicadeza – afinal, estava em algum lugar parecido com o céu, então o perdão era algo que ele realmente deveria começar a praticar – e explicou sua história. Contou ao anjo como vinha aturando o azar e todos os acontecimentos ruins em toda a sua vida por considerá-los produtos do acaso, como conseguia acordar todos os dias e seguir em frente, como chegou a uma ideia de negócio genial e como receber uma cagada de um pombo na cabeça justamente depois desse momento e enquanto atravessava a avenida foi a gota d’água da sua paciência com o universo. Alguém tinha que sofrer por isso. E Triguinho não era estúpido de contestar as autoridades divinas bem debaixo de seus respectivos narizes – apesar de ter certeza de que estes danados se divertiram um bocado às suas custas. E achou a solução.
-Entendo, senhor, mas só por curiosidade: qual foi a tal ideia maravilhosa que teve?
E Triguinho a explicou, detalhe por detalhe.
-Nossa, o senhor tem razão. Eu mesmo viraria um cliente fiel e compraria todos os seus produtos. E olha que eu sou bom em ser fiel, heh heh... – o anjo viu que Triguinho não riu de sua piada infame para quebrar o gelo e prosseguiu – Vou ver o que posso fazer pelo senhor. Não garanto nada, é que estou aqui há pouco tempo e nunca vi um caso como esses... Só um instante.
Triguinho tinha toda a eternidade para aguardar, então aceitou a espera sem problemas. E sorriu quando, três anos depois, o anjo voltou com boas novas:
-Senhor, o seu requerimento foi aprovado. Aqui está um número de protocolo com seus dados, basta levá-lo ao sexto andar, numa porta cinza em que está escrito “Casos de extremo azar em que a cagada de um pombo causa a morte de alguém com futuro brilhante”. Bata forte na porta, o pessoal lá realmente não tem muito trabalho, estavam dormindo quando cheguei. Mas se mostraram empolgados com o seu nome e história...
E assim fez Triguinho. Com um sorriso contido, chegou à sala do sexto andar e bateu. Foi prontamente atendido e recebeu as instruções de reencarnação. Foi-lhe dito que, como caso extremo, poderia escolher entre nascer e crescer seja lá onde os pombos crescem numa cidade, ou simplesmente preencher espiritualmente algum corpo de pombo desprovido de alma. Qualquer que fosse a opção, teria sua consciência humana por um mês, quando passaria a ter uma vida de pombo normal. Ao morrer, voltaria à sede do Paraíso com a consciência final do mês vivido como pombo.
Triguinho aceitou a existência vazia por algumas semanas – que seguramente seria melhor que alguns de seus dias na Terra- e reencarnou em um corpo de ave adulta sem alma.
No começo, foi difícil aprender a se mexer, a fugir das pessoas, a voar e a lidar com a fome constante e digestão quase instantânea. Mas Triguinho estava obstinado. Esperto, voava pouco e ia a alguns locais em que havia fartura de comida. Adaptado, viu que chegou a hora.
Era um sábado de sol parecido com seu dia fatal. Precisava de uma plateia para o que ia fazer, e por isso escolheu um local que era avistado por algumas salas de aula lotadas de gente fazendo prova e, portanto, buscando inspiração – ou a resposta – na janela. E aí voou. Voou assim que um companheiro de espécie decolou em direção a uma das janelas. Adiantou-se um pouco, relaxou e deixou a gravidade agir. Tinha conseguido: um pombo estava todo melado, agoniado e tentando se limpar um pouco mais abaixo. Olhou para a janela e viu o rosto alegremente espantado de meu irmão. A missão foi cumprida. Pombos não sorriem, mas a expressão do Triguinho-pombo, ali, gloriosamente parado e apreciando a cidade sobre o prédio, era a de um pombo feliz. E não por acaso.