não sou o que fui
nem o que sou.
não sou o que era
pois ele acabou.
não vejo o que flui
e, quando vejo, passou.
para-o-chão fito os olhos
e na distração embarco.
perdido, me acho.
terça-feira, 16 de abril de 2013
domingo, 7 de abril de 2013
angústia nossa de cada dia
Ela estava sentada na praia há um bom
tempo. Não sabia precisá-lo em minutos ou horas, só que passava um largo período
ali. Encontrava-se de costas para o mar porque olhava, com curiosidade, dois
velhinhos: o primeiro, mais sentado na bengala que no banco, a corcunda
acusando que a gravidade é mais forte que ele jamais havia suposto. Usava um
daqueles chapéus em forma de côco típicos da terceira idade, óculos de haste
escura e um colete cinza por cima da camisa branca. A segunda, aparentemente
mais jovem, sentada num banco com encosto, vestia um sobretudo com jeito de que
já fora elegantíssimo e mexia os próprios lábios com o indicador esquerdo,
protagonizando um gesto bobo e contraditoriamente pesado. Rita não conseguia
sair dali. Nem se lembrava do livro que trouxera para ler ao som do oceano
naquele meio de tarde nublado. Tampouco se dava conta dos ruídos marítimos:
estavam ali ela, o silêncio e os dois velhos.
O que mais estarrecia a moça jovem,
relativamente bonita, cabelos curtos, meio gordinha – culpa do último namorado,
que, além de galinha, era rico e a levava a ótimos restaurantes toda vez que
renovavam o relacionamento – eram os olhares dos dois: pareciam o mesmo.
Vazios. Semelhantes ao de um cachorro entediado após a morte do amado dono,
como se os seus corações houvessem petrificado embora continuassem
atravessáveis por pequenas doses de água. Corações de pedra, mas férteis.
Protegidos pois, caso contrário, explodem.
A angústia crescia em Rita. Não queria ter
um olhar vazio na sua velhice. Tinha planos, metas, amigos solícitos a ajudarem
quando bem necessitasse, livros a ler,
filmes a assistir. Como alguém pode, depois de viver (ou poder haver vivido)
tanto, ter um olhar sem conteúdo? Aquilo não iria ficar assim. Calçou as
sandálias, limpou-se da sempre inconveniente areia de praia e levantou-se.
-É complicado, querida.
Rita decidira falar com o velho – que tinha
cara mais simpática – com uma abordagem do tipo “tá um vento forte hoje, né?” e
passaria a tentar obter suas respostas com perguntas sutis, mas profundas como
a recém feita “esse ano tá passando muito ligeiro, não? Parece que o Natal foi
ontem...”. Pela resposta do seu Odair (logicamente, perguntara seu nome),
aproximava-se de seu objetivo.
-Como assim, seu Odair?
-Essa questão do tempo, sabe... É muito
difícil. Tanto que todo mundo tenta explicá-lo por metáforas, parábolas e tudo
mais. Nunca chegam pra dizer o que o tempo é exatamente, só sabem apontar e
dizer que o tempo é aquilo.
Rita fez uma expressão de aluno de ensino
fundamental em aula de cálculo 2. O velho emendou, sempre falando pausadamente,
voz grave e levemente rouca como a de qualquer ancião:
-Agora, por exemplo. Você falou do Natal e
que o ano passa rápido. Essa é a coisa mais óbvia sobre o tempo: ele passa. Mas
as pessoas, ao invés de falarem “o tempo passa”, preferem apontar para as
espinhas dos netos. Pensam naquilo, sabem o que é, mas preferem dar exemplos,
puxar outro assunto. Acho que isso é próprio da humanidade. Temos tanto medo que o tempo passe que
perdemos tempo sem saber o que fazer dele.
-E aí vivemos a angústia nossa de cada
dia.
Odair sorriu. A garota realmente prestava
atenção.
-Isso, isso.
Prosseguiu:
Prosseguiu:
-E vou te contar uma coisa: eu podia ter sido um dos grandes. Todo dia eu venho aqui e acabo por pensar
nisso. Sempre gostei muito de música, especialmente de jazz. Você gosta, Marta?
-Rita.
-Quê?
-O meu nome é Rita, senhor. Mas gosto sim.
Rita mentiu. Achava o jazz muito paradão, ritmo em excesso pra pouco movimento. Não que
ela entendesse de música e soubesse o conceito de ritmo ou movimento: só não se
digladiava ao escutar o ritmo nascido nos bares de Nova Orleans.
-Ah, perdão. Esse assunto me deixa
desnorteado. Pois bem. Eu era muito bom no saxofone. Tão bom que fui convidado
a ir para os Estados Unidos. Eu sabia tanto de inglês quanto os jovens hoje
entendem de música – Rita riu –, mas há linguagens que dispensam a fala. O
olhar, o gesto e, para mim, a mais bonita delas: a música instrumental.
Seu Odair perdeu-se em seu olhar mais uma
vez.
-E o senhor foi? – Rita tentou retorná-lo
à realidade. Num pequeno estalo, ele respondeu:
-Ah, sim. Quer dizer: não. E o melhor: não
sei se me arrependo. Embora eu pudesse haver sido um sucesso, aqui eu fiz uma
boa vida. Não devo nada a ninguém, trabalhei honestamente, tenho bons filhos,
netos inteligentes – o velho lembrou que um deles estava solteiro e que Rita
não era de se jogar fora, mas preferiu deixar o assunto para depois – e tudo
que sempre almejei.
-Mas será que lá você – Rita já se
considerou íntima o suficiente para tratá-lo informalmente – não teria tudo
isso? Digo, eu mesma conheço gente que foi para a Europa, Estados Unidos e até
Paquistão – ela tinha um tio, conhecido como “Evandro, o Doido”, que decidiu,
do dia para a noite, morar no Paquistão – e que se deram muito bem.
-Essa não é a questão, querida. Tudo pode
acontecer. Mas sempre fica aquele “e se”. Nunca me esqueço de quando meu
primeiro filho disse aos seus 10 aninhos de sabedoria que o pudim só era
gostoso daquele jeito porque todo dia tinha frango com purê.
Faz sentido, pensou Rita. Odair prosseguiu:
-O que eu quero dizer, minha filha – velho
tem mania de chamar qualquer um de filho – é que nada volta. Vi muita gente
passar a juventude fazendo coisas de velho para chegar na velhice achando que
ainda são jovens. Até chapinha de chocolate fazem. Fazem o que não querem para depois fazerem o que já quiseram. Só se
vive uma vez dos 17 até os 33 anos. Ao mesmo tempo, não dá pra fazer tudo o que
se quer, senão você nem chega aos 25. Sobremesa é bom, mas quem só come pudim
fica desnutrido e gordo. E não dá pra fugir disso: a vida é uma mistura do que
podemos com o que devemos fazer dela com uma pitada de nós mesmos.
-Você gosta de uma metáfora com culinária,
né? – perguntou Rita, sorrindo. Odair soltou uma gargalhada.
-É que na velhice você arruma tempo pra
cozinhar... – seguiu gargalhando. – Na verdade, de culinária gosto, mas, como
já te disse, não aprecio tanto assim as metáforas. Elas tornam a explicação
mais fácil, mas não explicam muito. Pessoas pensam em conceitos máximos sobre a
existência e o tempo, mas não os enunciam, talvez com medo de que sejam verdade.
E a verdade final é inconveniente: tudo acaba. Você, eu (provavelmente antes),
aquele cara de pau ali que não limpou a sujeira de seu cachorro, esse mar, o
agora e mesmo o que nem existe. E, se existe o belo, é porque existe o feio.
Cabe a cada um buscar o que lhe convém e interessa, senão, num estalo, estará
velho e sentado na orla da cidade, sem amigos ou confidentes.
Rita estranhou. Não era ele quem estava
satisfeito com a vida pacata que levara? Odair sorriu para continuar:
-Mas também se poderá ser um velho
solitário e realizado. Questão de perspectiva.
A moça estava boquiaberta. Nem reparou que
já estava escuro. Odair, sim:
-Querida, muitíssimo obrigado por me ouvir
e fazer companhia. Vocês, jovens, às vezes são muito imediatos, querem tudo e
não conseguem nada. Falta mistério. Mas isso é assunto pra outro dia, não? Já
está tarde, minha esposa deve estar preocupada.
Rita concordou, despediu-se e prometeu,
após muita insistência, adicionar o neto de seu Odair, Martinho, “numa dessas
conversas de computador aí”. Estava tarde e sentia fome. Foi a pé para casa,
pensando nas falas daquele senhor da fala mansa e firme. Chegou em casa e sua
mãe, de longe, disse:
-Ah, ainda bem, Rita! Chegou na hora do
jantar! Venha pra mesa, tá tudo quentinho!
Rita não respondeu, foi até a cozinha e a
beijou. Lavando as mãos e com o estômago doendo, perguntou:
-Mãe, o que tem pra jantar?
-Frango, purê e salada.
domingo, 24 de março de 2013
beleza, marcinho, gerdalva e claudinha
O apreço pelo belo nos fez humanos. Claro que
alguns outros mamíferos têm uma certa distinção entre o bom e o ruim, o
agradável e o repugnante. Mas somos diferenciados. A beleza, aquela beleza
profunda, do tipo que afaga os ânimos do mais exaltado entre os raivosos, só o
homem pode sentir. Mesmo que chegue a prescindir do uso de seus cinco sentidos.
Ele sabe fazer e apreciar uma boa música como nenhum outro animal. Consegue
reproduzir a lua e as estrelas tão fiel à realidade como eu seria se me casasse
com a Emma Watson. É capaz de cozinhar uma refeição de sabor indescritível e
aproveitá-la como ela merece. Ou alguém já viu algum cão por aí fazendo questão
de comer uma carne sem nervo ou um X-Bacon sem ovo e sem salada? Há a exceção
daqueles muito bem prendados cachorrinhos de madame, que fazem cara feia se o
champignon do lanche da tarde veio com sal além da conta. Eles são a exceção da
regra: apreciam (de uma maneira bem fresca, é verdade) o belo, mas tão somente
porque são cachorrinhos de madame.
É a busca implacável pelo belo e pelo que ele
faz sentir que move a humanidade. Esclareça-se de vez: não se fala da beleza
galã-de-novela-das-oito ou da formosura estética de um quadro de Monet. Fala-se
também delas. Pois cada um tem para
si um modelo de beleza – o que explica o gosto duvidoso de pais cujo
primogênito chama-se Josicleiton ou Edivânderson – e buscará tê-lo sempre em
sua volta. Por isso é que tem gente que prefere música clássica a forró e
vice-versa. O conceito máximo de beleza é aquilo que não impediria Mozart de
convidar uma morena para dançar ao som de Luiz Gonzaga. Talvez a muito provável
falta de aptidão biológica para rebolar do austríaco o fizesse, mas não o
conceito-mor de beleza.
É aí que me lembro da história do Márcio. Da
época que ele era Marcinho.
O Márcio era filho de um mecânico lá de perto da
rua. O conheci porque sou da época em que as crianças falavam mais e digitavam
menos. Era apaixonado, doido de pedra por uma loirinha também das redondezas,
tão bonita quanto seu nome lhe era inapropriado: a Gerdalva. Embora ele nunca
houvesse confessado ou mesmo falado a respeito - assim são os homens -, todos
da turma sabiam que ele era louquinho pela Claudinha. “Claudinha” porque até
então não sabíamos seu nome e, ao contrário de sua mãe, tínhamos mais tato para
eleger nomes de meninas atraentes. Seu único problema era o desinteresse que
jorrava de sua expressão, como se nada no mundo pudesse lhe chamar e manter a
atenção por mais de quinze minutos.
Jogávamos futebol num terreno que atualmente é
mais uma loja de móveis daquelas que nunca tem alguém comprando, mas parecem
existir desde sempre. Mas essa só parece, pois ali o Márcio, eu, o Juninho, o
André Cabeção e tantos outros praticávamos a arte e a luta (no meu caso,
zagueiro clássico, mais luta do que arte) do esporte bretão. E o Márcio era um
craque de bola. Muita gente jurava que ele ia virar um profissional dos bons.
Falava-se até em seleção, fama, o pessoal da rua sendo entrevistado após ele
ser vendido à Roma (sou da época que a Roma inspirava admiração e respeito,
tanto que ninguém errava seu gênero), esses eventos todos que acompanham um
jogador meia boca hoje em dia. Mas o Márcio tinha um problema: não ajudava a
marcar nunca.
-Volta, Márcio! Marca o Pelezinho!
E o Márcio não voltava. O Pelezinho, muito
embora seu apelido não sugira, era mais branco que uma nuvem de verão. Mas essa
já é outra história.
-Marca o Pavão, Márcio!
Naquela vez, a voz não veio do campo. E era mais
fina que o padrão dos jogos de pelada. Era a Claudinha. Chovia muito, e ela
teve que se abrigar na tenda que improvisamos para termos uma sombrinha.
Brasileira que é, aproveitou para acompanhar o cotejo. E o Márcio a obedeceu.
Correu como um louco, tomou a bola do Pavão, tabelou comigo, driblou um,
driblou dois e quase fez um golaço de cobertura. O André Cabeção até hoje jura
de pé junto que um raio atravessou os céus em sinal de espanto no exato momento
em que Márcio começou a correr.
Delírios à parte, o Márcio, desde então, começou
a marcar. E ficou bom nisso. Foi um dos meias mais completos entre os que nunca
se tornaram profissionais. Tínhamos mais idade e menos interesse em jogar
futebol todo dia quando ele decidiu ir abordar a Claudinha. O intento pode ser
resumido em uma fala da já muito bem torneada moça:
-Ah, Márcio, você é bonitinho, fala bem, sabe
jogar bola como ninguém, mas sei lá... Futebol não dá futuro. Meu pai mesmo diz
que é coisa de deliquente, de desocupado. Que eu tenho que buscar um rapaz de
cultura, sabe? Alguém que combine com um terno, com um óculos de leitura.
Márcio, é claro, abateu-se tremendamente. Ficou
tão consternado que esqueceu-se: a Claudinha fora criada pela mãe. E nem tinha
padrasto, tio, avô ou qualquer homem que pudesse inspirar o trato paternal. Largou,
aos poucos e sob inúmeros protestos (inclusive os meus), o futebol. Trocou a
bola pela caneta, as chuteiras pelos livros e o tempo treinando lançamentos
pelo de aula – que aconteciam, aliás, no mesmo horário.
Continuou a conversar, volta e meia, com a
Claudinha. Ele era, mesmo, doidinho por ela. Ela comentava que gostava de uma
música, ele aprendia a tocar violão e a dançar. A Claudinha citava uma passagem
de um autor, o Márcio lia três livros do tal escritor. Dizia que gostava de
filé com fritas, ele aprendia a fazer picanha com batata recheada. E assim
seguiu. Teve até namoricos com outras garotas, mas sempre pensava na loirinha
da rua. Imaginava se ela teria ciúmes se soubesse que ele perambulava com
outras moças pelos cinemas e bares da cidade. Até que, finalmente, começaram a
namorar. Poucas vezes eu vi um rapaz tão realizado. Feliz e careca: ele recém
tinha passado no vestibular para uma engenharia de nome difícil, mas que dá
dinheiro.
Pobre Márcio. Mês e meio depois, a Claudinha,
aquela miserável, o deixou. Sem nem dar um tchau, deixou uma carta com dois
parágrafos e péssimo português dizendo que nunca quis nada com ele e não
poderia prosseguir (palavra que ela escreveu com cedilha) num relacionamento
assim. Márcio, coitado, ficou arrasado. Claudinha, bandida, agora sim merecia
chamar-se Gerdalva. Maldita: sempre fora Gerdalva, nunca Claudinha!
E aqui reside o ponto principal da história. Ao
tanto buscar a beleza de Gerdalva, descobriu outras belezas. O dom da música, o
prazer da boa literatura, o prazer concentrado num contra-filé mal passado.
Tornou-se belo ele mesmo ao tanto tentar alcançar não exatamente a beleza
física da Gerdalva, mas o sentir-se bem que move a humanidade. Isso que o motivara
e o fizera entender melhor o conceito máximo do qual falei mais acima e como o
mundo pode ser belo por mais desagradável que seja.
Márcio formou-se com louvores, casou-se com uma
morena espetacular e hoje mora numa casa simples, de muito bom gosto, perto de
onde morávamos todos. Combina com um terno e com um óculos de leitura do mesmo
jeito que com uma regata e um par de chinelos de borracha.
E a Gerdalva? Bem, a Gerdalva voltou a ser
Claudinha. Deixou de ter aquele seu olhar desinteressado habitual quando
resolveu ser pintora e encontrou sua vocação. Foi num belo dia de chuva.
quinta-feira, 29 de novembro de 2012
carta de um velho
Não é fácil ser um velho. Principalmente condenado à
solidão, como o que vos fala. Hoje, pela última vez antes de me manifestar a
respeito, senti-me vulnerável à morte. Pude presenciar a fragilidade da vida.
Ah, o quanto eu daria por um corpo novinho! Será que nunca inventaram
transplante de cérebro? Por que tenho que estar preso a este fraco corpo,
sujeito, desde que eu nasci, a acidentes, doenças, balas e que é, às vezes,
refém de si mesmo? Quão magnífica seria a humanidade se feita de imortais! Ou
nem isso: peço, somente, cérebros imortais. Inventem uma máquina capaz de
oxigenar e nutrir os cérebros das grandes mentes humanas, permitindo que se
expressem! Já inventamos máquinas que nos fazem voar, nadar, sair do planeta e
ver outras galáxias que os bisnetos dos nossos netos nunca chegarão perto! Por
que diabos não inventamos a máquina definitiva, aquela potente o suficiente
para driblar o nosso único tormento, a nossa única certeza e, ainda assim, o
único motivo para querermos aproveitar os dias que nos restam? Porque sim,
estes dias estão contados, mas temos um problema: ninguém desvendou tal matemática!
Perdoem os devaneios deste velho solitário. É que já quase
não tenho forças para me levantar. Um dia, quando estiverem todos velhos – pois
este dia chegará aos mais afortunados -, alguns hão de me entender. Olho para
meus músculos e pergunto-me por que eles têm prazo de validade; vejo minha
imagem desgastada no espelho e pergunto-me se o tempo foi o único responsável
por estas rugas e cicatrizes. Sinto o palpitar do meu coração, que bate desde
que estive na barriga da minha finada e abençoada mãe, e torço para que ele não
pare agora. Não agora, não hoje e nem amanhã. Oh, coração, bata enquanto haja
esperança! Resista até que alguém se apodere da minha sugestão e salve o meu
cérebro! Aí, não mais precisarei de ti: serei só eu. Pois, se tem algo que
aprendi nesses meus setenta e tantos anos, coração, é que ninguém é o próprio
corpo. Longe disso: cada um é o que faz e cada um faz o que é – salvo alguns
enganos, mas nada que fuja da normalidade. Nossos rostos, um dia magníficos por
obra e graça da juventude, um dia virarão caveira. E aí só restará o que
fizemos: filhos, netos, amores e desamores, ações e omissões. Restará o que falamos.
Restará um legado – ou uma estátua, para os mais importantes. Nomes em livros
de história que serão estudados e depois esquecidos ou admirados. Quartos
empoeirados, saudosos da vida que antes jorrava pelos seus rincões. Fotografias
descoloridas de rostos e corpos que jamais serão vistos ou repetidos – no
máximo, lembrados.
Que meu corpo opere por muito tempo! Que eu seja por muitos
anos o velho solitário que vos fala, cada dia mais velho e mais agradecido por
ter despertado. Mais agradecido por ter mais uma oportunidade de comer uma boa
carne, tomar um bom uísque e fumar algo que preste. Pois tenho certeza, e fico
muito triste em admiti-lo, que há pratos que não mais saborearei. Há ruas pelas
quais nunca mais voltarei a caminhar. Cigarros que sempre jurei que fosse fumar
nunca estarão em minha boca. Os tantos colchões sobre os quais dormi já não
sentirão o meu corpo cansado em cima de si. Livros, oh céus! Quantos livros eu
juro que vou ler desde que tinha os meus quinze anos e nunca sequer os comprei!
Filmes que adoro e não sei se os tornarei a assistir. Grandes amigos que perdi
e perderei...
Hoje, este pobre velhote que vos fala teve o seu momento Hamlet. Mas, ao contrário da personagem,
não preciso de nenhuma caveira para isso. Sempre me achei inteligente – mais
porque os outros o diziam de mim do que por outra coisa. Ah, como sinto falta
da minha juventude! Aquele poder incrível de achar que qualquer doença será driblada
com facilidade pelo ágil espírito que temos quando jovens! Aquela sensação
maravilhosa de que há tempo para o que queremos, haverá um dia em que a
oportunidade de fazer isso ou aquilo chegará, como certo é o nascer do sol e o
girar da Terra. Quão triste me senti quando me dei conta de que não, não há
tempo para tudo. Quando percebi que a oportunidade para ir ao natal em Nova
Iorque não chegará, que não poderei ir curtir o carnaval do Rio, que não posso
mergulhar com os golfinhos da Nova Zelândia, e se lá existirem golfinhos - de
que adianta saber se não poderei conferir? Prefiro ficar ignorante, contemplar
o nada, desestimular meu cérebro! Vai que, um belo dia, ele comunga com o resto
do meu corpo e vira um nada de vez?
Pó eu tornarei, mas me perdoe quem disse que de lá viemos -
não me lembro o nome do cristão, sinal de que minhas preces pela ignorância são
ouvidas. Eu mesmo não vim de pó nenhum. Eu vim do nada. Eu era nada, até que me
dei conta que eu era alguma coisa. Como me arrependo de não haver pedido que
meus pais registrassem essa data! Se eu descobrisse quando foi esse dia
abençoado, iria agora mesmo no cartório para que mudassem a data do meu
nascimento. Porque não, eu não nasci quando era uma máquina de instintos que berrava
como o animalzinho que já fui. Nasci quando me dei conta que sou eu. Quando,
pela primeira vez, senti o prazer de ter um corpo todo sujeito ao meu arbítrio.
Nascemos, amigos, neste momento, quando nos damos conta que temos um corpo
inteiramente ao dispor de nossas consciências.
Se assim é, morremos quando percebemos que ele já não nos é
fiel. Não morremos a morte morrida, aquela em que se adormece para sempre – ou
seja, simplesmente voltamos ao que éramos antes de nos darmos conta de que
somos algo. Quando vemos que o nosso corpo irá fraquejar, que ele está sujeito
a qualquer intempérie como uma formiga está a um passo apressado e assassino.
Julgamos que somos fortes, até que chega uma gripe pesada ou uma dor de dente. Um
pé quebrado e dolorido que nos impede de pensar e nos coloca no chão. Que
impede que nos aproximemos da divindade. Maldito seja o dia em que me dei conta
disso! Em que comecei a me preocupar! Faz tempo, é verdade, mas desde então
tive certeza de que pessoas pelas quais eu passo e nem sequer tenho a boa educação
de lhes dar uma saudação ou desejar um singelo bom dia nunca mais tornarão a
ver o meu rosto, a desfrutar da minha presença. Alguns (muitos) nem sequer me
viram! Como não percebem que é uma chance única, criada por esse sacana chamado
acaso, apelidado por muitos de destino?
Tudo será mais fácil quando ao pó eu for. Se a morte começa
quando nos damos conta que ela existe, ela nos acompanha toda a vida. Uma bela
acompanhante, diga-se! Pensem que sou louco, mas considero a morte uma
grande amiga – não só uma companheira de viagem. Ou alguém tem outra definição
para amigo que não alguém que lhe acompanha por toda a sua vida, momentos bons
e ruins, lembrando-lhe que eles são únicos e que um dia tudo isso há de
terminar? Ah, minha grande amiga Morte! Amiga verdadeira, que me dá um choque
de realidade a cada momento que me recordo quem sou. Aí está outra coisa que
este velhote pode ensinar: amizade mesmo é aquela que lhes diz a realidade.
Ainda bem que me envolvi contigo, Morte, e não com falsas promessas de vida
eterna ou de outras vidas. Pois sim, é tentador conviver com a ideia de que
voltarei ou de que me libertarei deste corpo que hoje dói como se avisasse que
tem prazo de validade (o que já sei desde que comecei a morrer). Respeito,
porém, aqueles que não pensam assim: cada um é livre para escolher suas
amizades. Só acho que amigo bom é aquele que me dá um tapa para que acorde, não
o que me estupefaz a fim de me proporcionar doces sonhos - que são bons, mas irreais.
Fique claro: não é que eu não queira ver minha consciência
livre do meu corpo e indo de encontro aos meus amados já ausentes desse mundo
para depois esperar os que ainda irão. Torço muito por isso, aliás. Torço, mas
não acredito: é como me senti em relação ao meu time durante mais ou menos
metade da minha vida. Quero tanto que até agora, enquanto escrevo este desabafo
como o velho que sou, não me sai da cabeça que existe a chance de que inventem
a tal máquina. Chances mínimas, mas como a de eu existir! É só pensar como fui sortudo
de que meu pai encontrasse minha mãe no momento certo para eu vir à tona – eu,
e não uma outra combinação genética qualquer. Probabilidade tão diminuta como a
de eu encontrar a minha esposa em um lugar ao qual quase desistira de ir. Tão
pequena como a de meus filhos terem nascido tão belos, cópias da mãe.
E isso, meus caros, é a nossa existência: a vitória de
pequenas frações de probabilidade. E o confronto constante delas com a maior
das frações, tão grande que é um número inteiro: a morte. Nossa angústia
existencial nasce daí, do embate entre as inúmeras possibilidades que temos
frente à única certeza da vida. E aí o tempo passa e vemos que elas estão
diminuindo. Então começamos a morrer enquanto elas diminuem em tal proporção
que chegam a uma só. Que a última probabilidade da minha vida seja a de que
inventem a máquina. Ou que ao menos a batizem com o meu nome. Caso contrário,
meus feitos se desintegrarão como meus ossos e, em alguns anos, não passarei de
uma fotografia descolorida. De um anônimo na história, de um velho louco que escreveu
uma carta, julgo eu, bastante perturbadora. Mas que, talvez, conseguiu algumas
novas amizades para minha fiel companheira.
Morte, agradeça-me por esses novos amigos da melhor forma:
não venha me buscar. Pelo menos não tão cedo. Meu corpo fraqueja, mas minha
mente vive. Dê-me licença, amiga, que tenho outras cartas para escrever. Livros
para ler, filmes para rever, pessoas a saudar. Boa noite e até o mais próximo
do nunca possível, pois ainda tenho umas possibilidades para aproveitar. Posso
ser um velho, posso estar sozinho, mas uma coisa te garanto: minha torcida é pé
quente. Tem dúvida? É só olhar os troféus ganhos por meu time.
Passar bem, amiga. Espero nunca te ver. Dormirei de meia. Só
pra garantir.
terça-feira, 25 de setembro de 2012
O Trigo e a cagada do pombo
Meu irmão me contou, dia desses, que presenciara uma cena que lhe
causou espanto: um pombo cagando em outro. Isso mesmo: viu, com os
próprios olhos, uma destas nem tão amadas criaturas urbanas defecando sobre
uma de suas companheiras de espécie. E eu lhe respondi que havia um quê de
poesia nisso. Supondo um universo mágico que tantos acreditam que existe,
imaginei que talvez este acontecimento não fosse um mero produto do acaso. Não:
foi uma grande vingança.
Tudo começa com a vida de um protagonista chamado, digamos,
Trigo. Já chegou ao mundo com o fardo de ser chamado por um nome de planta. Mas
se contentou: antes Trigo que, sabe-se lá, Girassol, Fruta-pão ou Joio.
Apelidado de Triguinho desde os oito anos, foi um aluno mediano durante o colégio, mais por sua falta de interesse que por sua capacidade. Aos catorze, apaixonou-se por uma menina e contou isso a um
amigo. Dez anos depois, o amigo e a moça se casaram após um longo e estável
relacionamento construído desde a escola. Triguinho não foi sequer convidado
para a festa.
Triguinho, aos dezessete, não acreditava mais em destino.
Para ele, tudo era produto e origem do acaso. Por isso, parou de crer que usar
a mesma cueca suja daquela vitória épica
nos jogos seguintes faria o seu time ganhar o campeonato – além de ser um
bocado mais higiênico. Não via relação entre a sua presença no estádio e a
derrota da equipe, embora alguns de seus amigos houvessem criado a chamada
“Pergunta Preventriga”, que consistia em perguntar a Triguinho se iria ao jogo
para evitar qualquer estresse ou contratempo ao irem ao estádio presenciar um
revés do clube.
E o ditado “azar no jogo, sorte no amor” não se aplicava a
Triguinho. Depois da desilusão dos catorze anos, deixou o amor de lado e perdeu
várias oportunidades de aproveitar-se do seu erro. Perdeu, inclusive, o amor de
Judite, que era feia aos catorze - quando chegou a se declarar a Triguinho -,
mas porque a puberdade chegaria tardiamente para a garota que viraria Judite
Cardozo, famosa jornalista brasileira que, dizem, só não foi eleita a musa do
ano por uma revista internacional porque trabalharia anos depois para a
concorrente da publicação ou porque teria recusado um convite para jantar do
editor-chefe. Na verdade, não foi escolhida porque a vencedora era mais bonita mesmo.
Triguinho teve dúvidas para escolher sua profissão.
Escolheu Administração e se formou com louvores. Para um descrente do destino,
um universo profissional que, ao menos em teoria, valoriza o empreendorismo
agradou a Triguinho. Mas Triguinho não dava sorte. Suas ideias pareciam,
simplesmente, não funcionar. Abriu alguns tantos negócios, trabalhou para
algumas firmas, sempre sem sucesso. Resolveu dar-se férias: homem prudente,
tinha algumas reservas para viajar por algum tempo. Deu tchau e bênção para a
família e os amigos e partiu para a Austrália por dois meses, Estados Unidos
por mais dois e Europa por três. Quando embarcou na aventura, tinha certeza que
voltaria com alguma ideia brilhante de negócio ou produto que lhe proveria o
sustento pelo resto da vida.
Mas não. Voltou com um filho, produto de uma camisinha mal
fabricada e cujo recall fora feito na
noite em que Triguinho consumou o ato com uma portuguesa que havia conhecido na
Austrália e que havia reencontrado ao acaso na Irlanda. “Ao acaso” porque
Triguinho não acreditava em coincidências. Mas a portuguesa, sim: essa foi a
principal razão para que ela dormisse com o rapaz naquela trágica noite e não,
como ele pensara, suas habilidades (nem tão) formidáveis na sinuca.
Anos depois, Triguinho percebeu isso. Sentado num gramado
público, percebeu que, apesar de ser o acaso a força-motriz do mundo, tudo
acontece por uma razão. E mais: as pessoas gostam que essa razão esteja
associada a elas. E esse foi o momento Eureka
de Trigo. Ali, naquele dia ensolarado, sentado despretenciosamente num gramado
a três quadras de onde vivera toda a vida, teve uma ideia genial de negócio. Um
estalo que revolucionaria o mercado, causaria uma reviravolta em sua vida e na
de seus futuros clientes. Sorrindo, resolveu não perder tempo e ir correndo
para casa, onde anotaria os pontos principais da ideia e os guardaria a quinze
chaves, pois sete não eram suficientes para o prudente e azarado Triguinho. Só
que, ao atravessar a rua, sentiu algo em sua careca – mencione-se que
Triguinho era calvo desde os dezenove e careca desde os vinte e dois – e olhou
para cima. Era um pombo. Um pombo que cagou na sua careca. No meio da rua. Peraí... no
meio da rua?
E assim se encerrou a trajetória de Triguinho entre os
viventes. A notícia do atropelamento trágico de um empresário e pai de dois
filhos – sim, dois porque uma antiga (e muitíssimo feia) namorada o acusara de tê-la engravidado
e, embora nunca houvessem transado, o exame de DNA deu positivo e Triguinho
teve de assumir a criança, que conseguia ser mais feia que a mãe – não comoveu
muita gente além daqueles que o conheciam. No enterro, o padre, contratado pela
mãe de Triguinho, clamou que sua alma fosse bem recebida no Paraíso e gozasse
da vida eterna em paz.
Mas essa não era a vontade de Triguinho. Não agora.
-Eu quero reencarnar.
-Tudo bem. Então, por favor, dirija-se ao purgatório. É no
terceiro andar, uma porta grande, dourada e cheia de buracos, não tem erro.
-Mas senhora... Perdão, eu devo chamar um anjo de senhor ou
senhora? Ou senhorita, talvez?
-Não importa, o que o senhor se sinta mais à vontade.
-Ok, então. É que você não entende: eu quero reencarnar
como um animal.
-Como um animal? Ok, tudo bem. Mas qual? Devo alertar ao
senhor que reencarnar como um cão não vem com a garantia de que receberá uma
boa criação como a que acredito que o senhor deu aos seus cachorrinhos...
-Não, senhora. Eu não quero ser um cachorro. Eu quero ser
um pombo.
O anjo se surpreendeu. Essa era nova. Finalmente alguma
coisa além do “Paraíso, último andar”, “Inferno, espere que ônibus passe no
lado de fora” e “Purgatório, terceiro andar, portão dourado e esburacado”. Teve
curiosidade e, apesar do dever de manter a postura profissional e
desinteressada, soltou um sorriso de canto de boca e perguntou:
-Perdoe a indelicadeza, senhor, mas por que alguém
desejaria reencarnar, sabe, como um pombo? É algum fetiche, desejo antigo ou
algo do tipo?
Triguinho perdoou a indelicadeza – afinal, estava em algum
lugar parecido com o céu, então o perdão era algo que ele realmente deveria
começar a praticar – e explicou sua história. Contou ao anjo como vinha
aturando o azar e todos os acontecimentos ruins em toda a sua vida por considerá-los
produtos do acaso, como conseguia acordar todos os dias e seguir em frente,
como chegou a uma ideia de negócio genial e como receber uma cagada de um pombo
na cabeça justamente depois desse momento e enquanto atravessava a avenida foi a gota
d’água da sua paciência com o universo. Alguém tinha que sofrer por isso. E
Triguinho não era estúpido de contestar as autoridades divinas bem debaixo de
seus respectivos narizes – apesar de ter certeza de que estes danados se
divertiram um bocado às suas custas. E achou a solução.
-Entendo, senhor, mas só por curiosidade: qual foi a tal
ideia maravilhosa que teve?
E Triguinho a explicou, detalhe por detalhe.
-Nossa, o senhor tem razão. Eu mesmo viraria um cliente
fiel e compraria todos os seus produtos. E olha que eu sou bom em ser fiel, heh
heh... – o anjo viu que Triguinho não riu de sua piada infame para quebrar o
gelo e prosseguiu – Vou ver o que posso fazer pelo senhor. Não garanto nada, é
que estou aqui há pouco tempo e nunca vi um caso como esses... Só um instante.
Triguinho tinha toda a eternidade para aguardar, então
aceitou a espera sem problemas. E sorriu quando, três anos depois, o anjo voltou
com boas novas:
-Senhor, o seu requerimento foi aprovado. Aqui está um
número de protocolo com seus dados, basta levá-lo ao sexto andar, numa porta
cinza em que está escrito “Casos de extremo azar em que a cagada de um pombo
causa a morte de alguém com futuro brilhante”. Bata forte na porta, o pessoal
lá realmente não tem muito trabalho, estavam dormindo quando cheguei. Mas se mostraram empolgados com o seu nome e história...
E assim fez Triguinho. Com um sorriso contido, chegou à
sala do sexto andar e bateu. Foi prontamente atendido e recebeu as instruções
de reencarnação. Foi-lhe dito que, como caso extremo, poderia escolher entre
nascer e crescer seja lá onde os pombos crescem numa cidade, ou simplesmente
preencher espiritualmente algum corpo de pombo desprovido de alma. Qualquer que
fosse a opção, teria sua consciência humana por um mês, quando passaria a ter
uma vida de pombo normal. Ao morrer, voltaria à sede do Paraíso com a
consciência final do mês vivido como pombo.
Triguinho aceitou a existência vazia por algumas semanas –
que seguramente seria melhor que alguns de seus dias na Terra- e reencarnou em
um corpo de ave adulta sem alma.
No começo, foi difícil aprender a se mexer, a fugir das
pessoas, a voar e a lidar com a fome constante e digestão quase instantânea. Mas Triguinho
estava obstinado. Esperto, voava pouco e ia a alguns locais em que havia
fartura de comida. Adaptado, viu que chegou a hora.
Era um sábado de sol parecido com seu dia fatal. Precisava
de uma plateia para o que ia fazer, e por isso escolheu um local que era
avistado por algumas salas de aula lotadas de gente fazendo prova e, portanto,
buscando inspiração – ou a resposta – na janela. E aí voou. Voou assim que um
companheiro de espécie decolou em direção a uma das janelas. Adiantou-se um
pouco, relaxou e deixou a gravidade agir. Tinha conseguido: um pombo estava
todo melado, agoniado e tentando se limpar um pouco mais abaixo. Olhou para a
janela e viu o rosto alegremente espantado de meu irmão. A missão foi cumprida.
Pombos não sorriem, mas a expressão do Triguinho-pombo, ali, gloriosamente parado e apreciando a cidade sobre o prédio, era a de um
pombo feliz. E não por acaso.
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